Artesanato em risco: técnicas raras que ainda resistem em Portugal
Que técnicas artesanais portuguesas estão em risco de desaparecer, quais estão em salvaguarda urgente da UNESCO e do inventário nacional, porque se perdem e o que as mantém vivas.
Neste artigo
Por Tiago Reis, cofundador da Ra‑Ro · Ver perfil
Leitura de cerca de 9 minutos

Confesso: há uma pergunta que me acompanha sempre que uma peça nova entra na Ra‑Ro. Quantas pessoas, em Portugal, ainda sabem fazer isto? Muitas vezes a resposta cabe nos dedos de uma mão. É uma raridade que não se escolhe, que acontece por falta de quem aprenda, e é por isso que gosto tanto destas técnicas como me preocupo com elas.
O artesanato em risco em Portugal inclui o fabrico de chocalhos, o barro preto de Bisalhães e a carpintaria dos barcos moliceiros, as três técnicas portuguesas na lista de salvaguarda urgente da UNESCO, e ainda a decoração da olaria de Redondo, com salvaguarda urgente no inventário nacional. Estas técnicas artesanais em extinção desaparecem porque os mestres envelhecem, faltam aprendizes e o produto industrial é mais barato. Resistem quando alguém as compra, as aprende e as regista.
Que técnicas artesanais portuguesas estão em risco de desaparecer?
As listas oficiais dão pistas muito claras. Quando a UNESCO inscreveu o fabrico de chocalhos na Lista do Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente, a 1 de dezembro de 2015, o processo contava 13 artesãos em 11 oficinas, nove deles com mais de 70 anos. O centro é Alcáçovas, no concelho de Viana do Alentejo, com oficinas também noutras localidades do país.
Em Bisalhães, Vila Real, o processo de fabrico do barro preto entrou em 2015 no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, logo com salvaguarda urgente, e a 29 de novembro de 2016 chegou à lista urgente da UNESCO, numa reunião em Adis Abeba. A ficha nacional descreve seis oleiros, os mais velhos entre os 74 e os 81 anos, e apenas um mais novo.
Em dezembro de 2025 foi a vez do barco moliceiro, a arte da carpintaria naval da região de Aveiro. A documentação citada na imprensa fala de apenas cinco mestres construtores no ativo, quatro deles com mais de 60 anos. Nos anos 70 havia cerca de três mil moliceiros na Ria de Aveiro; hoje são menos de 50.
Há também alarmes que ainda não chegaram à UNESCO. As técnicas de decoração da olaria de Redondo, no Alentejo, foram inscritas no inventário nacional em novembro de 2024 com salvaguarda urgente. Quem as mantém vivas são oito pintores e um oleiro.
Que artesanato português é património cultural imaterial?
Nem todo o património imaterial está em perigo, e ainda bem. O figurado em barro de Estremoz está na Lista Representativa da UNESCO desde dezembro de 2017. O figurado de Barcelos entrou no inventário nacional a 10 de julho de 2026, com cerca de 50 artesãos no ativo, e em setembro de 2026 recebeu ainda proteção europeia como indicação geográfica de produtos artesanais e industriais. A tabela junta as técnicas que consegui confirmar em fontes oficiais.
| Técnica | Região | Estatuto | Ano |
|---|---|---|---|
| Fabrico de chocalhos | Alcáçovas, Alentejo | UNESCO, salvaguarda urgente | 2015 |
| Barro preto de Bisalhães | Vila Real, Trás-os-Montes | Inventário nacional (salvaguarda urgente) e UNESCO, salvaguarda urgente | 2015 e 2016 |
| Figurado em barro de Estremoz | Estremoz, Alentejo | UNESCO, Lista Representativa | 2017 |
| Decoração da olaria de Redondo | Redondo, Alentejo | Inventário nacional, salvaguarda urgente | 2024 |
| Bordado de Castelo Branco | Castelo Branco, Beira Baixa | Inventário nacional | 2025 |
| Barro negro de Molelos | Tondela, Viseu | Inventário nacional | 2025 |
| Barco moliceiro (carpintaria naval) | Ria de Aveiro | UNESCO, salvaguarda urgente | 2025 |
| Figurado de Barcelos | Galegos, Barcelos, Minho | Inventário nacional | 2026 |
O Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial é gerido pelo Património Cultural, I.P., e a inscrição costuma ser o primeiro passo antes de uma candidatura à UNESCO. Não é um troféu: obriga a comunidade a descrever o que faz, quem o faz e como o vai transmitir.
Porque é que as técnicas artesanais desaparecem?
As fichas oficiais repetem as mesmas razões, quase palavra por palavra. Resumo-as assim:
- Mestres cada vez mais velhos. Nos chocalhos, nove em treze artesãos tinham mais de 70 anos quando a UNESCO os inscreveu.
- Falta de aprendizes. A UNESCO fala do desinteresse das gerações mais novas em Bisalhães, e em Castelo Branco o processo do bordado refere o número reduzido de bordadeiras e a pouca procura dos cursos.
- Concorrência industrial e preço. O plástico e o alumínio substituíram a loiça de barro na cozinha, e a peça feita à mão tem de competir com a feita em série.
- Fim da função original. Os chocalhos perderam uso com as novas formas de pastoreio, e os moliceiros deixaram de ser precisos para apanhar moliço.
- Matéria-prima difícil. O esparto arranca-se à mão entre julho e setembro e o bunho apanha-se uma vez por ano. Sem quem colha, não há quem teça.
Acrescento uma razão que não aparece nas fichas: o cansaço. Muitos dos artesãos com quem trabalhamos têm outro emprego e dedicam ao ofício o fim do dia. Uma técnica que depende de horas roubadas ao descanso está sempre a um passo de parar.
Que técnicas raras ainda resistem?
Na Ra‑Ro trabalhamos com várias pessoas que mantêm vivas técnicas que quase ninguém domina. Algumas não estão em nenhum inventário, mas a raridade é a mesma.
Soenga e barro negro de Gondar
Em Gondar, Amarante, César Teixeira molda o barro na roda baixa, horizontal e manual, e coze-o em soenga, uma cova onde o fogo abafado escurece as peças. Aprendeu aos 18 anos com o mestre oleiro Manuel Teixeira, trabalha numa antiga escola primária, a mesma onde aprendeu a ler, e durante o dia continua no hospital local. A boa notícia é que o filho, João, se juntou a ele depois de estudar cerâmica na ESAD, nas Caldas da Rainha. Juntos fazem soengas públicas e oficinas. É o barro negro de Gondar, primo do barro de Molelos, onde a soenga também resiste.
Cobertor de papa em Maçainhas
O cobertor de papa quase se perdeu quando a fábrica José Freire fechou, em 2013. Céu Reis, que lá trabalhou mais de duas décadas, fundou em 2018 O Genuíno Cobertor de Papa, com mais 15 sócios, e resgatou um tear manual com cerca de 300 anos. Tecem lã de ovelha churra, à mão, com os mesmos artesãos da antiga fábrica. A Câmara da Guarda anunciou em 2019 um processo para pedir a inscrição do fabrico no inventário nacional; ainda não encontrei a inscrição publicada.
Esparto, palma e bunho
No Algarve, Isidoro Ramos, de Paderne, aprendeu o esparto com a avó e a mãe e voltou a ele depois de se reformar. É dos poucos que ainda o colhe nas serras do interior algarvio. A sua Caracoleira é feita em empreita, tranças enroladas e cosidas desde a base.
Em Tavira, através da AECT, mulheres entre os 70 e os 80 anos tecem palma como há cinquenta anos se fazia para apanhar batatas e alfarrobas. São delas o Tapete, a Cesta Espiral e a Cesta com Tampa. Nas Caldas da Rainha, Helena Novelletto, uma das últimas tecedeiras de bunho em atividade no país, aprendeu com o mestre Manuel Ferreira, de Santarém.
Burel e lã da serra
Em Manteigas, a Ecolã, fundada em 1925, esteve perto de fechar até João Clara de Assunção regressar em 1995. Hoje faz burel com lã bordaleira Serra da Estrela, e é daí que nasce o Cobertor de Lã (Manta Pastor). Na Serra de Montemuro, As Capuchinhas tecem em teares manuais peças como o Casaco de Burel Mesclado Claro.
O que ajuda a salvar uma técnica artesanal em risco?
Não há fórmula mágica, mas há gestos que fazem diferença real:
- Comprar diretamente, ou a quem diga o nome de quem fez. O dinheiro chega à oficina e a peça deixa de ser anónima.
- Aprender e ensinar. As oficinas "Trabalhar o Cobre" de Nuno Palma, caldeireiro em Loulé, e as soengas públicas de César e João Teixeira põem mãos novas no ofício.
- Registar o saber. A inscrição no inventário nacional obriga a documentar a técnica. Em Redondo, o processo considera indispensável um plano de salvaguarda com formação.
- Proteger o nome. A indicação geográfica europeia do figurado de Barcelos impede que qualquer figura se venda com esse nome.
- Dar-lhe uma nova vida. As bordadeiras de Castelo Branco defendem o diálogo com designers, e As Capuchinhas trabalham com design contemporâneo de Paula Caria.
É por isso que na Ra‑Ro cada peça tem o nome de quem a fez e uma nota no Índice Ra‑Ro, de Invulgar a Único. Não é um selo de luxo, é um aviso. Quanto mais alta a nota, menos mãos restam. Pode ler mais sobre a escala no glossário do Índice Ra‑Ro.
Perguntas frequentes
Que artesanato português está na lista de salvaguarda urgente da UNESCO?
Três técnicas: o fabrico de chocalhos (2015), o processo de fabrico do barro preto de Bisalhães (2016) e o barco moliceiro, arte da carpintaria naval da região de Aveiro (2025).
O que é o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial?
É o registo oficial português do património imaterial, gerido pelo Património Cultural, I.P. Uma inscrição pode ter o estatuto de salvaguarda urgente e costuma anteceder uma candidatura à UNESCO.
Quantos oleiros ainda fazem barro preto de Bisalhães?
A ficha do inventário nacional descreve seis oleiros, os mais velhos entre os 74 e os 81 anos, e apenas um mais novo. Em 2016, a imprensa falava de cinco com o barro como atividade principal.
Qual é a diferença entre o barro negro de Bisalhães, Molelos e Gondar?
São três centros de loiça negra, escurecida por uma cozedura sem oxigénio. Bisalhães fica em Vila Real e está na UNESCO; Molelos, em Tondela, entrou no inventário nacional em 2025 com sete oleiros; em Gondar, Amarante, César Teixeira usa a roda baixa e a soenga.
O figurado de Barcelos está em risco?
Não tem estatuto de salvaguarda urgente. Foi inscrito no inventário nacional a 10 de julho de 2026, com cerca de 50 artesãos no ativo e produção ao longo de todo o ano, e em setembro de 2026 recebeu proteção europeia como indicação geográfica.
Como posso ajudar a preservar o artesanato tradicional português?
Compre peças com o nome de quem as fez, de preferência diretamente ou a quem trabalhe com o artesão, participe em oficinas, visite as oficinas e aceite pagar o tempo que cada peça leva.







