Peças com alma: como os objetos feitos à mão mudam a energia de uma casa
Objetos feitos à mão em materiais naturais trazem textura, calor e história a uma casa. Veja porque mudam a sensação de uma divisão e como começar com uma peça de cada vez.
Neste artigo
Por Tiago Reis, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil
Leitura de cerca de 6 minutos

Uma casa ganha boa energia, no sentido de ambiente e de sensação, quando os objetos que a enchem têm matéria, uso e história. Peças feitas à mão em barro, madeira, lã, linho, fibras vegetais ou cobre trazem textura, calor e pequenas imperfeições que nenhum objeto de série tem. Quando sabemos quem as fez e como, deixam de ser decoração e passam a fazer parte da vida da casa. Não é preciso mudar tudo: basta começar por uma peça bem escolhida em cada divisão.
Peças com alma em resumo
- O que são: objetos feitos à mão, em materiais naturais, com uma origem e um autor que se conhecem.
- O que mudam: a textura, a luz e o calor de uma divisão, e a forma como se vive nela.
- Materiais: barro, madeira, lã, linho, fibras vegetais como o bunho ou a bananeira, e cobre.
- A regra: menos objetos, mais escolhidos, e para usar no dia a dia.
- Como começar: uma peça por divisão, escolhida com tempo.
- Na Ra-Ro: peças de cerca de 40 artesãos portugueses, classificadas no Índice Ra-Ro.
O que é uma peça com alma?
Dizemos que uma peça tem alma quando se percebe que alguém a pensou e a fez com as mãos. Tem marcas do processo: uma ligeira assimetria, um veio de madeira que não se repete, um ponto de bordado um pouco mais apertado. Tem também uma origem: um lugar, uma matéria-prima, uma técnica que passou de geração em geração. É a diferença entre um objeto que se compra para encher um espaço e um objeto que se escolhe porque diz alguma coisa a quem vive com ele.
Porque é que os materiais naturais mudam a sensação de uma casa?
Os materiais naturais falam com os sentidos. O barro é fresco ao toque e mate à vista, a madeira é morna e tem cheiro, a lã e o linho abafam o som e suavizam a luz, as fibras vegetais deixam passar o ar, o cobre ganha cor com o tempo e devolve uma luz quente.
Há investigação que aponta no mesmo sentido, embora deva ser lida com prudência. Um estudo da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, feito com o instituto FPInnovations, comparou escritórios mobilados com madeira e com plástico e registou menos sinais fisiológicos de stress nas salas com madeira. E o relatório 14 Patterns of Biophilic Design, publicado em 2014 pela consultora Terrapin Bright Green, inclui a ligação material à natureza (madeira, pedra, barro) entre os padrões de design que podem tornar um espaço mais agradável. São estudos que sugerem uma tendência, não promessas: o que cada pessoa sente em casa depende de muito mais.
Porque é que a imperfeição do feito à mão faz bem a uma casa?
Os objetos de série são todos iguais e, por isso, o olhar passa por eles sem parar. Uma peça feita à mão obriga a reparar. No Pote de Barro Negro (60,20 euros), de Cesar Teixeira, a cor vem do fumo da soenga, a cozedura tradicional de Gondar, e muda de peça para peça. Na Taça Tamaná (72,15 euros), o Luca, entalhador autodidata da Serra da Estrela, trabalha madeira que sobreviveu aos incêndios e deixa à vista as marcas do fogo. A história está em A taça que nasceu do fogo.
Porque importa saber quem fez a peça?
Saber que o Prato em Cobre (124,20 euros) foi cortado e martelado por Nuno Palma, um jovem artesão de Loulé que recupera técnicas tradicionais, muda a forma como se olha para ele, na mesa ou na parede. Saber que o Saco de Alfazema (32,79 euros) é linho com Bordado de Guimarães, uma técnica que hoje poucas artesãs certificadas dominam, dá-lhe outro valor dentro de uma gaveta. Muitos destes ofícios estão nas mãos de muito poucas pessoas, como contamos em Ofícios raros em Portugal: os últimos mestres. O que faz uma peça ser rara está explicado em O que torna uma peça rara.
Menos objetos, mais escolhidos: o que é o slow living em casa?
Slow living é a ideia de viver com mais calma e mais intenção. Em casa, traduz-se numa regra simples: ter menos coisas, mas melhores, e usá-las. Uma peça feita à mão não precisa de ficar fechada numa vitrine. A Cântara de Barro Negro (36,20 euros) serve água à mesa, um cesto guarda a fruta, uma taça recebe as chaves. Bem tratadas, peças assim acompanham uma casa durante anos. É também um consumo mais consciente: compra-se menos, compra-se a quem faz, e o dinheiro ajuda a manter vivo um ofício que de outra forma podia desaparecer.
Como começar: uma peça por divisão
- Entrada: uma taça de madeira para as chaves, como a Taça Tamaná.
- Sala: luz quente e textura com o Candeeiro em Bunho (94,70 euros), de Helena Novelletto, entrançado numa planta que cresce em charcos e lagos.
- Cozinha: um pote ou uma cântara de barro negro, para usar e não só para ver.
- Mesa: o prato em cobre ao centro, com fruta ou pão.
- Quarto: o saco de alfazema em linho bordado, entre a roupa.
- Arrumação: o Cesto Redondo de Cestaria Entrançada (57,80 euros), da MUSAZ, feito em São Miguel, nos Açores, com fibra do caule da bananeira, que de outra forma seria deitado fora.
Comece pela divisão onde passa mais tempo e só depois escolha a seguinte.
Quanto custam e onde comprar peças feitas à mão?
Há peças com alma para vários orçamentos. Entre 30 e 60 euros encontra linho bordado e barro negro; entre 55 e 100 euros, cestos, taças de madeira e o candeeiro em bunho; o cobre martelado passa os 120 euros. Na Ra-Ro reunimos o trabalho de cerca de 40 artesãos de oito regiões de Portugal, Açores incluídos, e em cada página de produto contamos quem fez a peça e como. Cada uma tem uma classificação no Índice Ra-Ro, de Invulgar a Único, para saber o quão difícil é de encontrar.
Perguntas frequentes
Como ter boa energia em casa?
No sentido de ambiente, ajuda ter luz natural, menos objetos e materiais com textura, como madeira, barro, linho ou fibras vegetais. Uma peça feita à mão e bem escolhida em cada divisão já muda a sensação do espaço.
O que são objetos com alma?
São peças feitas à mão, com marcas do processo, uma origem conhecida e um autor identificado. Escolhem-se pelo que dizem a quem vive com elas, não para encher espaço.
Que materiais naturais usar na decoração da casa?
Barro, madeira, lã, linho, fibras vegetais como o bunho ou a bananeira, e cobre. Trazem textura, calor e envelhecem bem com o uso.
A madeira e os materiais naturais fazem bem ao bem-estar?
Há estudos que o sugerem, como um da Universidade da Colúmbia Britânica com a FPInnovations, que registou menos sinais fisiológicos de stress em salas com madeira. São indicações, não garantias.
O que é o slow living em casa?
É viver com mais calma e intenção: ter menos coisas, mas melhores, duráveis e para usar no dia a dia.
Onde comprar peças portuguesas feitas à mão?
Na Ra-Ro, com peças de cerca de 40 artesãos de oito regiões de Portugal, cada uma classificada no Índice Ra-Ro, de Invulgar a Único.
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