Noites de chuva: hidromel, mel amargo e cobertor de papa
Hidromel de mel de urze, mel amargo do Algarve e cobertor de papa de Maçainhas: o kit de inverno da Ra‑Ro para as primeiras noites de chuva, com dicas de serviço, cuidados com a lã e ideias de presente de...
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Por Tiago Reis, cofundador da Ra‑Ro · Ver perfil
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Chegou a chuva. Aquela chuva miúda de outubro que bate na janela ao fim da tarde e nos faz procurar, quase sem pensar, uma manta, um copo e um lugar no sofá. Confesso que é a minha altura preferida do ano para estar em casa. Na Ra‑Ro, passámos as últimas semanas a juntar as peças que, para nós, fazem uma noite fria à portuguesa: lã da serra, mel de inverno e um cálice de hidromel.
Para uma noite de chuva em Portugal, a resposta mais portuguesa que conheço é esta: um copo de hidromel de mel de urze da Serra da Estrela, uma colher de mel amargo do Algarve com queijo curado, e um cobertor de papa de Maçainhas por cima dos joelhos. Juntámos tudo isto, e mais algumas mantas de lã portuguesas, na nova coleção Inverno Ra‑Ro.
Coleção Inverno Ra‑Ro
Hidromel, mel amargo, cobertores de papa, mantas e cachecóis de lã
Todas as peças deste artigo, reunidas numa só coleção para o frio que aí vem.
Ver a coleçãoO que beber numa noite fria em Portugal?
Numa noite fria, gosto de um copo pequeno de algo feito devagar, com ingredientes da serra. As minhas duas escolhas vêm do mesmo sítio, a destilaria dos Licores Serrano, na Covilhã, onde Artur Aleixo começou, no final dos anos 80, a recriar bebidas antigas com zimbro, medronho, ginja e mel de urze.
- Hidromel Tradicional: feito com mel de urze da Serra da Estrela, por fermentação. É ligeiramente doce, lembra o mel de onde nasceu e pede um copo de vinho e tempo.
- Licor de Sabugueiro: flor de sabugueiro colhida a 800 metros de altitude e infundida em licor por métodos tradicionais. O sabor é floral e doce, e fica na boca muito depois do último gole.
Um aviso que faço sempre com gosto: são bebidas para provar, não para despejar. Um cálice chega para aquecer a conversa. O resto da noite fica por conta da manta.
O que é o hidromel e como se serve?
O hidromel é uma bebida alcoólica fermentada em que a maior parte dos açúcares vem do mel. A receita básica, como explica a Wikipédia, leva apenas água, mel e leveduras: o mel é diluído em água, as leveduras transformam os açúcares em álcool e a bebida é depois clarificada e deixada a repousar. É uma das bebidas fermentadas mais antigas que se conhecem.
O que torna o nosso diferente é o mel. O mel de urze da Serra da Estrela é cor de âmbar e tem um sabor a um tempo salgado, ácido e doce, e é isso que passa para o copo. Contei a história completa no artigo Hidromel de Mel de Urze: a bebida dos deuses feita na Serra da Estrela.
Então, frio ou quente? Para o Hidromel Tradicional dos Licores Serrano, a nossa sugestão é servi-lo levemente fresco, a 10 a 12 °C, num copo de vinho. Também pode ser servido à temperatura ambiente, com queijos e sobremesas, ou fresco como aperitivo. Acompanha bem queijos curados, carnes assadas e doces. Não damos indicações para o aquecer, por isso não o recomendo.
O que é o mel amargo?
O mel amargo é o mel de medronheiro. As abelhas fazem-no com o néctar das flores do medronheiro, que floresce no outono e no inverno, quando quase todas as outras flores já desapareceram. O nosso vem de São Marcos da Serra, no concelho de Silves, onde o medronheiro floresce de outubro a janeiro e as abelhas se veem a trabalhar ao frio.
Na boca começa doce e vira depressa para um amargo complexo, com notas que lembram café. Cristaliza depressa, o que é natural e não quer dizer que tenha perdido qualidade. O Mel Amargo é da Regionalarte, da família Lima, que há gerações destila medronho nas mesmas colinas. Gosto dele com queijo curado, requeijão, iogurte natural ou um quadrado de chocolate negro, ao lado do copo de hidromel.
O que é o cobertor de papa e de onde vem?
O cobertor de papa é um cobertor artesanal tradicional da região da Serra da Estrela, feito à mão com lã churra, grossa e comprida. É pesado, quente, denso e felpudo, e quase impermeável. Vem de Maçainhas, no concelho da Guarda, junto ao rio Mondego, onde a produção de lanifícios ganhou força no século XVIII, com o impulso do Marquês de Pombal.
O nome tem uma explicação bonita: durante o acabamento, as peças são mergulhadas em água e ficam temporariamente com o aspeto de uma papa. Os pastores usavam-nos para se aquecerem durante a pastorícia, e diz a tradição que também para afugentar os lobos. Tudo isto está bem descrito na entrada da Wikipédia sobre o Cobertor de Papa e numa reportagem do Gerador em Maçainhas.
Quando a fábrica onde trabalhava fechou, Céu Reis não deixou o ofício morrer. A 15 de maio de 2018 fundou, com mais 15 sócios, a Associação O Genuíno Cobertor de Papa, recuperou um tear manual de madeira com cerca de 300 anos e voltou a tecer à moda antiga, com a mãe, Rosa Baía, e outros artesãos. Se quiser saber como se reconhece um cobertor genuíno, escrevi um guia: Cobertor de Papa: preço, onde comprar e como reconhecer o genuíno.
Que mantas de lã portuguesas aquecem uma casa no inverno?
Há mais do que uma resposta, e cada uma tem a sua serra. Estas são as que temos na coleção de inverno:
- Cobertor de Papa (Manta do Pastor): o clássico de Maçainhas, com mais de 225 por 170 centímetros. No Índice Ra‑Ro está no nível Único.
- Cobertor de Papa (Manta Lobeira): a manta lobeira é a variante às riscas coloridas do cobertor de papa, em branco, castanho, verde, vermelho e amarelo.
- Cobertor de Lã (Manta Pastor) da Ecolã: 100% lã crua de ovelha bordaleira, tecida em Manteigas, na Serra da Estrela, por uma pequena empresa familiar.
- Os cachecóis de As Capuchinhas, a cooperativa de Campo Benfeito, na Serra de Montemuro: o Cachecol Matizado, em 100% lã de fios matizados, e o Cachecol Mesclado, com laranja tingido com líquenes e pompons em burel.
E, para quem prefere levar a lã para o dia a dia, há a Agenda em Cobertor de Papa, com capa feita do mesmo tecido.
O que leva um kit de inverno à portuguesa?
Se tivesse de montar um kit para a primeira noite de chuva a sério, seria este. Os preços são os da Ra‑Ro em setembro de 2026.
| Peça | Porquê | Preço aproximado |
|---|---|---|
| Hidromel Tradicional | Um copo lento, de mel de urze da serra | 21,80 € |
| Mel Amargo | O mel do inverno, para o queijo e o chocolate | 9,60 € |
| Cobertor de Lã Ecolã | Lã crua bordaleira, para o sofá | 114,00 € |
| Cobertor de Papa (Manta do Pastor) | O peso quente da Guarda, para a cama | 198,10 € |
| Cobertor de Papa (Manta Lobeira) | As riscas de cor que alegram o inverno | 271,90 € |
| Agenda em Cobertor de Papa | O inverno inteiro, em papel e lã | 35,70 € |
O Licor de Sabugueiro e os cachecóis de As Capuchinhas completam o kit. Pode ver todas as peças e os preços atualizados na coleção Inverno Ra‑Ro.
Como cuidar de uma manta de lã?
Uma manta de lã bem tratada dura gerações. O segredo é lavar pouco e arejar muito. Estas são as regras que seguimos para o cobertor de papa e que servem para quase todas as mantas de lã grossa:
- Areje-a ao ar livre num dia seco e sacuda-a. Um ou dois dias ao sol ajudam a refrescá-la sem lavagem.
- Trate as nódoas no local, com água fria e um pano, sem esfregar.
- Quando precisar mesmo de lavar, use água fria e um detergente próprio para lã, ou peça a uma lavandaria que saiba que a peça é 100% lã.
- Nunca use água quente nem agitação forte, e nunca a ponha na máquina de secar: a lã volta a feltrar e encolhe.
- Seque-a estendida ao ar livre e só a guarde quando estiver completamente seca.
- Guarde-a dobrada, num sítio seco, de preferência num saco de algodão que respire, protegida da traça.
Que presentes de Natal portugueses oferecer este inverno?
O Natal está mais perto do que parece, e um presente de inverno tem uma vantagem: vai ser usado já. As minhas ideias de presente de Natal portuguesas, deste lado da coleção:
- Para quem gosta de mesa: Hidromel Tradicional e Mel Amargo, juntos. Um doce, outro amargo, ambos de inverno.
- Para quem vive com frio: um cachecol de As Capuchinhas, tecido em teares manuais na Serra de Montemuro.
- Para uma casa nova ou um casamento: um cobertor de papa, que é presente para passar aos filhos.
- Para quem anda sempre a apontar coisas: a Agenda em Cobertor de Papa.
Para mais ideias organizadas por orçamento, veja o nosso guia Presentes de Natal portugueses feitos à mão: guia por preço. E se quiser oferecer o inverno inteiro de uma vez, está tudo na coleção Inverno Ra‑Ro.
Cá em casa, a chuva já começou. O cobertor está no sofá, o hidromel está no frigorífico, e eu estou pronto.
Perguntas frequentes
O hidromel serve-se frio ou quente?
Para o Hidromel Tradicional dos Licores Serrano, sugerimos servi-lo levemente fresco, a 10 a 12 °C, num copo de vinho. Também pode ir à mesa à temperatura ambiente, com queijos e sobremesas, ou fresco como aperitivo.
O que é o hidromel?
É uma bebida alcoólica fermentada em que a maior parte dos açúcares vem do mel. Faz-se com água, mel e leveduras. O da Ra‑Ro é feito na Covilhã com mel de urze da Serra da Estrela.
Onde se faz o cobertor de papa genuíno?
Em Maçainhas, no concelho da Guarda, pela Associação O Genuíno Cobertor de Papa, fundada em 2018 por Céu Reis. Os cobertores são tecidos à mão num tear de madeira com cerca de 300 anos.
Porque se chama cobertor de papa?
Durante o acabamento, as peças são mergulhadas em água e ganham temporariamente o aspeto de uma papa, e é daí que se diz vir o nome.
Como se lava um cobertor de papa?
Lave pouco. Areje ao ar livre, trate nódoas com água fria sem esfregar e, se precisar de lavar, use água fria e detergente para lã, sem agitação. Seque estendido e nunca na máquina de secar.
O mel amargo é mesmo amargo?
Começa doce e evolui para um amargo complexo, com notas de café. É mel de medronheiro, colhido no inverno em São Marcos da Serra, no Algarve, e fica muito bem com queijo curado ou chocolate negro.







