Ofícios raros em Portugal: os últimos mestres ainda em atividade
Oito ofícios raros em Portugal, do esparto do Algarve ao cobertor de papa de Maçainhas, contados através dos mestres artesãos que ainda os mantêm vivos e das peças que fazem.
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Por Tiago Reis, cofundador da Ra‑Ro · Ver perfil
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Quando digo raro, penso quase sempre em mãos. Nas mãos de quem arranca esparto na serra, de quem rapa sal no Tejo, de quem passa mês e meio a construir uma viola. Na Ra‑Ro, a raridade não é um adjetivo bonito para vender, é algo que tentamos medir, peça a peça, com o Índice Ra‑Ro.
Os ofícios raros em Portugal são saberes tradicionais que hoje dependem de muito poucas pessoas, como a espartaria do Algarve, a empreita de palma de Tavira, o burel da Serra da Estrela, a construção da viola campaniça, o sal tradicional do Samouco ou o cobertor de papa de Maçainhas. São raros porque a matéria-prima é difícil de obter, a técnica leva anos a aprender e a passagem entre gerações quase se interrompeu. Neste artigo apresento oito destes ofícios e os mestres artesãos com quem trabalhamos.
O que torna um ofício raro?
Para mim, um ofício é raro quando se juntam três coisas: poucas pessoas que o saibam fazer, uma técnica que não se aprende num fim de semana e uma matéria-prima ou um lugar que não se copiam. Não chega ser antigo. Os que me tiram o sono são os que dependem de uma aldeia, de uma associação ou de um único artesão.
O Programa Nacional Saber Fazer Portugal mapeia artes e ofícios tradicionais e os artesãos que os mantêm. O Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial regista as práticas que as comunidades querem salvaguardar. Na Ra‑Ro juntamos a isso o nosso Índice Ra‑Ro, uma escala de 1 a 5 (Invulgar, Escasso, Raro, Raríssimo, Único) que diz, com honestidade, quão rara é cada peça.
Quem ainda trabalha o esparto no Algarve?
O esparto é uma planta autóctone das serras do interior algarvio e do Alentejo. Não se corta nem se colhe: arranca-se, entre julho e setembro, e é preciso força. Depois fica ao sol até ganhar um dourado bonito e vai de molho para recuperar a flexibilidade antes de ser entrançado.
Isidoro Ramos nasceu em Paderne, no concelho de Albufeira, e aprendeu o ofício em criança com a avó e com a mãe. Isidoro passou a vida profissional numa companhia telefónica e, quando se reformou, voltou ao campo. Hoje é dos poucos artesãos em Portugal que ainda colhem o esparto na serra, e o Programa Saber Fazer Portugal inclui-o entre os artesãos de esparto do país.
A peça que mais me comove é a Barreleira, o cesto onde a roupa esperava pela barrela, feito com tranças de esparto enroladas e cosidas à mão, da base até à tampa.
O que é a empreita de palma de Tavira?
A empreita é o entrançado de tiras de folha de palma em fitas compridas, que depois se cosem umas às outras para fazer cestos, alcofas e tapetes. Segundo o Programa Saber Fazer Portugal, é um elemento fundamental da cultura material do Algarve, com relevância económica do século XVI até meados do século XX, feito sobretudo por mulheres, muitas vezes no inverno.
Em Tavira trabalhamos com a AECT, Associação Em Contacto Tavira, que desde 2000 cuida da população sénior e combate o isolamento através da arte e das tradições. Hoje a Cesta Espiral é tecida por mulheres entre os 70 e os 80 anos, e algumas ainda trabalham no campo todos os dias. Aqui, a raridade tem rosto e tem idade.
Porque é que o burel da Serra da Estrela é raro?
O burel é um pano de lã da Serra da Estrela, tecido no tear e depois pisoado, batido e escaldado até ficar denso e quase impermeável. Era o tecido das capas dos pastores e das roupas de quem vivia na serra. É raro porque exige lã de raças autóctones, um processo lento e gente que o saiba fazer.
Em Manteigas, a Ecolã foi fundada em 1925. João Clara de Assunção, economista, voltou de Lisboa em 1995 para salvar da extinção o negócio da família, e hoje trabalha com a quarta geração, as filhas, como sócias e artesãs. Tudo gira à volta da lã bordaleira Serra da Estrela. O Cobertor de Lã (Manta Pastor) é feito com lã crua, nas cores naturais das ovelhas: branco, bege ou castanho.
Quem mantém os teares manuais da Serra de Montemuro?
Nos anos 80, quando emigrar era muitas vezes o destino das jovens do interior, quatro amigas de Campo Benfeito, na Serra de Montemuro, fizeram uma formação de corte e costura e decidiram ficar. Fundaram a cooperativa As Capuchinhas, com o nome da capucha, a capa com que os pastores da serra se protegiam do frio e da chuva.
Tecem linho, lã e burel em teares manuais e tingem a lã com o que a aldeia dá: líquenes para o amarelo, folhas de nogueira para o castanho, fetos e urtigas para o verde. O Casaco de Burel Mesclado Claro tem gola, punhos e bolsos em malha tingida com folha de nogueira. É raro porque junta tear manual, tinturaria natural e o design contemporâneo de Paula Caria.
Quem ainda constrói a viola campaniça?
A viola campaniça é o cordofone do Campo Branco, no Baixo Alentejo, que abrange Aljustrel, Ourique, Castro Verde e Almodôvar. Tem cinco ordens de cordas duplas e acompanhava os balhos, os despiques e o cante. Nas recolhas feitas entre 1983 e 1985, os investigadores só encontraram tocadores idosos, e o instrumento esteve perto de desaparecer. O renascimento veio depois, com músicos mais novos, como conta este apontamento histórico do portal Folclore de Portugal.
Em Aveiro, Diogo Valente constrói cordofones à mão. Aprendeu com o mestre José Gonçalves, e em 2023 foi nomeado Membro Honorário pelo Museu do Cavaquinho. A sua Viola Campaniça leva cerca de mês e meio a ficar pronta. Não é uma oficina alentejana, e faço questão de o dizer.
Ainda se faz sal tradicional no Tejo?
Sim, mas por um fio. As Salinas do Samouco, em Alcochete, chegaram a ter 56 salinas em 360 hectares. Hoje só uma continua em atividade, a Marinha do Canto, que as próprias Salinas do Samouco descrevem como a única salina ativa no Tejo, com uma tradição documentada desde o século XIII e uma equipa de cinco salineiros. A Fundação das Salinas do Samouco, criada em 2000, preserva este saber.
O ano do sal começa em março, com a limpeza dos tanques e a reparação do tabuado. Em junho sai a primeira safra, rapada com o rodo em pequenos montes. A Flor de Sal é a camada fina de cristais que se forma à superfície e se recolhe à mão. A história completa está no perfil das Salinas do Samouco, e no glossário explico o que é a flor de sal.
O vidro soprado ainda é um ofício de mestre?
O vidro soprado começa com fogo, areia e ar, e continua a precisar de mestres vidreiros. Nas Caldas da Rainha, o designer Samuel Reis trabalha lado a lado com uma equipa desses mestres e encontrou uma forma só dele: corta troncos já ocos, sem cerne, e usa-os como moldes. O vidro é soprado lá dentro e a madeira decide o resto.
Chamou-lhe projeto Cerne, e o trabalho foi apresentado na exposição Homo Faber, em Veneza. O Jarro Cerne da Madeira nunca sai igual, porque não há dois troncos iguais.
O que aconteceu ao cobertor de papa de Maçainhas?
O cobertor de papa é um cobertor espesso de lã de ovelha churra, tecido em teares manuais de madeira e escovado com gestos longos para ganhar isolamento. Em Maçainhas, na Guarda, a fábrica José Freire fechou em 2013 e o cobertor entrou em extinção.
Céu Reis trabalhou lá mais de duas décadas e não deixou a história acabar assim. Em 2018, com mais 15 sócios, fundou a Associação O Genuíno Cobertor de Papa, resgatou um tear manual com cerca de 300 anos e voltou a tecer com os antigos artesãos da fábrica. Hoje lidera a única equipa certificada que ainda produz o genuíno cobertor. Em 2019, a Câmara da Guarda iniciou o processo para inscrever o fabrico no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e propô-lo à UNESCO. Na Ra‑Ro contamos a história da Céu, mas neste momento não tenho um cobertor de papa na loja para lhe mostrar, e prefiro dizê-lo a fingir.
Onde ficam estes ofícios raros e o que os torna únicos?
| Ofício | Onde | Porque é raro | Na Ra‑Ro |
|---|---|---|---|
| Espartaria | Paderne, Albufeira (Algarve) | Poucos artesãos ainda arrancam o esparto na serra | Barreleira, de Isidoro Ramos |
| Empreita de palma | Tavira (Algarve) | Feita por artesãs entre os 70 e os 80 anos | Cesta Espiral, da AECT |
| Burel e tecelagem de lã | Manteigas (Serra da Estrela) | Oficina familiar desde 1925, lã bordaleira autóctone | Manta Pastor, da Ecolã |
| Tear manual e tinturaria natural | Campo Benfeito (Serra de Montemuro) | Cooperativa de aldeia, tintas de plantas locais | Casaco de Burel, das Capuchinhas |
| Viola campaniça | Baixo Alentejo; construída em Aveiro | Quase desapareceu nos anos 80 | Viola Campaniça, de Instrumentos Valente |
| Sal tradicional | Samouco, Alcochete (Tejo) | Única salina ativa no Tejo, cinco salineiros | Flor de Sal, das Salinas do Samouco |
| Vidro soprado em molde de madeira | Caldas da Rainha | Moldes de troncos ocos, cada peça é diferente | Jarro Cerne, de Samuel Reis |
| Cobertor de papa | Maçainhas, Guarda | Única equipa certificada, tear com cerca de 300 anos | História de O Genuíno Cobertor de Papa |
Como reconhecer uma peça feita por um mestre artesão?
Uma peça de mestre tem nome, lugar e marcas da mão de quem a fez. Antes de comprar, vale a pena olhar para estes sinais:
- Pergunte quem fez e onde. Um cesto de esparto de Paderne e um cesto de palma de Tavira podem parecer primos, mas são ofícios diferentes.
- Desconfie de peças idênticas, sem nome, vendidas apenas como "típicas" ou "tradicionais".
- Compre a quem conhece o artesão, na oficina, numa feira ou numa loja que diga o nome de quem fez a peça.
Há outros mestres, como o caldeireiro Nuno Palma, em Loulé. Na Ra‑Ro, cada peça tem o nome de quem a fez, e o Índice Ra‑Ro diz-lhe quão rara é.
Perguntas frequentes
Quais são os ofícios mais raros em Portugal?
Não há uma lista oficial única. Entre os ofícios tradicionais portugueses mais frágeis estão a espartaria do Algarve, a empreita de palma, o burel da Serra da Estrela, a construção da viola campaniça, o sal tradicional do Tejo e o cobertor de papa de Maçainhas.
Porque é que há cada vez menos mestres artesãos?
Porque muitos ofícios deixaram de dar sustento. Onde o saber sobrevive, é quase sempre porque alguém decidiu voltar, como Isidoro Ramos no esparto ou Céu Reis no cobertor de papa.
Qual é a diferença entre esparto e palma?
São plantas diferentes. O esparto é arrancado nas serras do interior algarvio e do Alentejo e seca ao sol até ficar dourado. A palma dá as tiras que se entrançam na empreita.
Quantos salineiros trabalham nas Salinas do Samouco?
Segundo as próprias Salinas do Samouco, a Marinha do Canto, única salina ativa no Tejo, é trabalhada por uma equipa de cinco salineiros.
O cobertor de papa é património cultural imaterial?
Em 2019, a Câmara da Guarda iniciou o processo para inscrever o fabrico do cobertor de papa no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e para o propor à UNESCO.
Como sei quão rara é uma peça na Ra‑Ro?
Cada peça tem um nível no Índice Ra‑Ro, uma escala de 1 a 5: Invulgar, Escasso, Raro, Raríssimo e Único. O nível aparece em cada peça, ao lado do nome de quem a fez.







