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Ofícios raros em Portugal: os últimos mestres ainda em atividade

Oito ofícios raros em Portugal, do esparto do Algarve ao cobertor de papa de Maçainhas, contados através dos mestres artesãos que ainda os mantêm vivos e das peças que fazem.

10 min de leituraPor Tiago Reis

Caracoleira em esparto feita à mão por Isidoro Ramos, Paderne
Caracoleira em esparto feita à mão por Isidoro Ramos, Paderne

Tiago ReisPor Tiago Reis, cofundador da Ra‑Ro · Ver perfil

Leitura de cerca de 8 minutos

Barreleira em esparto feita à mão por Isidoro Ramos, artesão de Paderne, no Algarve

Quando digo raro, penso quase sempre em mãos. Nas mãos de quem arranca esparto na serra, de quem rapa sal no Tejo, de quem passa mês e meio a construir uma viola. Na Ra‑Ro, a raridade não é um adjetivo bonito para vender, é algo que tentamos medir, peça a peça, com o Índice Ra‑Ro.

Os ofícios raros em Portugal são saberes tradicionais que hoje dependem de muito poucas pessoas, como a espartaria do Algarve, a empreita de palma de Tavira, o burel da Serra da Estrela, a construção da viola campaniça, o sal tradicional do Samouco ou o cobertor de papa de Maçainhas. São raros porque a matéria-prima é difícil de obter, a técnica leva anos a aprender e a passagem entre gerações quase se interrompeu. Neste artigo apresento oito destes ofícios e os mestres artesãos com quem trabalhamos.

O que torna um ofício raro?

Para mim, um ofício é raro quando se juntam três coisas: poucas pessoas que o saibam fazer, uma técnica que não se aprende num fim de semana e uma matéria-prima ou um lugar que não se copiam. Não chega ser antigo. Os que me tiram o sono são os que dependem de uma aldeia, de uma associação ou de um único artesão.

O Programa Nacional Saber Fazer Portugal mapeia artes e ofícios tradicionais e os artesãos que os mantêm. O Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial regista as práticas que as comunidades querem salvaguardar. Na Ra‑Ro juntamos a isso o nosso Índice Ra‑Ro, uma escala de 1 a 5 (Invulgar, Escasso, Raro, Raríssimo, Único) que diz, com honestidade, quão rara é cada peça.

Quem ainda trabalha o esparto no Algarve?

O esparto é uma planta autóctone das serras do interior algarvio e do Alentejo. Não se corta nem se colhe: arranca-se, entre julho e setembro, e é preciso força. Depois fica ao sol até ganhar um dourado bonito e vai de molho para recuperar a flexibilidade antes de ser entrançado.

Isidoro Ramos nasceu em Paderne, no concelho de Albufeira, e aprendeu o ofício em criança com a avó e com a mãe. Isidoro passou a vida profissional numa companhia telefónica e, quando se reformou, voltou ao campo. Hoje é dos poucos artesãos em Portugal que ainda colhem o esparto na serra, e o Programa Saber Fazer Portugal inclui-o entre os artesãos de esparto do país.

A peça que mais me comove é a Barreleira, o cesto onde a roupa esperava pela barrela, feito com tranças de esparto enroladas e cosidas à mão, da base até à tampa.

O que é a empreita de palma de Tavira?

A empreita é o entrançado de tiras de folha de palma em fitas compridas, que depois se cosem umas às outras para fazer cestos, alcofas e tapetes. Segundo o Programa Saber Fazer Portugal, é um elemento fundamental da cultura material do Algarve, com relevância económica do século XVI até meados do século XX, feito sobretudo por mulheres, muitas vezes no inverno.

Em Tavira trabalhamos com a AECT, Associação Em Contacto Tavira, que desde 2000 cuida da população sénior e combate o isolamento através da arte e das tradições. Hoje a Cesta Espiral é tecida por mulheres entre os 70 e os 80 anos, e algumas ainda trabalham no campo todos os dias. Aqui, a raridade tem rosto e tem idade.

Porque é que o burel da Serra da Estrela é raro?

O burel é um pano de lã da Serra da Estrela, tecido no tear e depois pisoado, batido e escaldado até ficar denso e quase impermeável. Era o tecido das capas dos pastores e das roupas de quem vivia na serra. É raro porque exige lã de raças autóctones, um processo lento e gente que o saiba fazer.

Em Manteigas, a Ecolã foi fundada em 1925. João Clara de Assunção, economista, voltou de Lisboa em 1995 para salvar da extinção o negócio da família, e hoje trabalha com a quarta geração, as filhas, como sócias e artesãs. Tudo gira à volta da lã bordaleira Serra da Estrela. O Cobertor de Lã (Manta Pastor) é feito com lã crua, nas cores naturais das ovelhas: branco, bege ou castanho.

Quem mantém os teares manuais da Serra de Montemuro?

Nos anos 80, quando emigrar era muitas vezes o destino das jovens do interior, quatro amigas de Campo Benfeito, na Serra de Montemuro, fizeram uma formação de corte e costura e decidiram ficar. Fundaram a cooperativa As Capuchinhas, com o nome da capucha, a capa com que os pastores da serra se protegiam do frio e da chuva.

Tecem linho, lã e burel em teares manuais e tingem a lã com o que a aldeia dá: líquenes para o amarelo, folhas de nogueira para o castanho, fetos e urtigas para o verde. O Casaco de Burel Mesclado Claro tem gola, punhos e bolsos em malha tingida com folha de nogueira. É raro porque junta tear manual, tinturaria natural e o design contemporâneo de Paula Caria.

Quem ainda constrói a viola campaniça?

A viola campaniça é o cordofone do Campo Branco, no Baixo Alentejo, que abrange Aljustrel, Ourique, Castro Verde e Almodôvar. Tem cinco ordens de cordas duplas e acompanhava os balhos, os despiques e o cante. Nas recolhas feitas entre 1983 e 1985, os investigadores só encontraram tocadores idosos, e o instrumento esteve perto de desaparecer. O renascimento veio depois, com músicos mais novos, como conta este apontamento histórico do portal Folclore de Portugal.

Em Aveiro, Diogo Valente constrói cordofones à mão. Aprendeu com o mestre José Gonçalves, e em 2023 foi nomeado Membro Honorário pelo Museu do Cavaquinho. A sua Viola Campaniça leva cerca de mês e meio a ficar pronta. Não é uma oficina alentejana, e faço questão de o dizer.

Ainda se faz sal tradicional no Tejo?

Sim, mas por um fio. As Salinas do Samouco, em Alcochete, chegaram a ter 56 salinas em 360 hectares. Hoje só uma continua em atividade, a Marinha do Canto, que as próprias Salinas do Samouco descrevem como a única salina ativa no Tejo, com uma tradição documentada desde o século XIII e uma equipa de cinco salineiros. A Fundação das Salinas do Samouco, criada em 2000, preserva este saber.

O ano do sal começa em março, com a limpeza dos tanques e a reparação do tabuado. Em junho sai a primeira safra, rapada com o rodo em pequenos montes. A Flor de Sal é a camada fina de cristais que se forma à superfície e se recolhe à mão. A história completa está no perfil das Salinas do Samouco, e no glossário explico o que é a flor de sal.

O vidro soprado ainda é um ofício de mestre?

O vidro soprado começa com fogo, areia e ar, e continua a precisar de mestres vidreiros. Nas Caldas da Rainha, o designer Samuel Reis trabalha lado a lado com uma equipa desses mestres e encontrou uma forma só dele: corta troncos já ocos, sem cerne, e usa-os como moldes. O vidro é soprado lá dentro e a madeira decide o resto.

Chamou-lhe projeto Cerne, e o trabalho foi apresentado na exposição Homo Faber, em Veneza. O Jarro Cerne da Madeira nunca sai igual, porque não há dois troncos iguais.

O que aconteceu ao cobertor de papa de Maçainhas?

O cobertor de papa é um cobertor espesso de lã de ovelha churra, tecido em teares manuais de madeira e escovado com gestos longos para ganhar isolamento. Em Maçainhas, na Guarda, a fábrica José Freire fechou em 2013 e o cobertor entrou em extinção.

Céu Reis trabalhou lá mais de duas décadas e não deixou a história acabar assim. Em 2018, com mais 15 sócios, fundou a Associação O Genuíno Cobertor de Papa, resgatou um tear manual com cerca de 300 anos e voltou a tecer com os antigos artesãos da fábrica. Hoje lidera a única equipa certificada que ainda produz o genuíno cobertor. Em 2019, a Câmara da Guarda iniciou o processo para inscrever o fabrico no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e propô-lo à UNESCO. Na Ra‑Ro contamos a história da Céu, mas neste momento não tenho um cobertor de papa na loja para lhe mostrar, e prefiro dizê-lo a fingir.

Onde ficam estes ofícios raros e o que os torna únicos?

Ofício Onde Porque é raro Na Ra‑Ro
Espartaria Paderne, Albufeira (Algarve) Poucos artesãos ainda arrancam o esparto na serra Barreleira, de Isidoro Ramos
Empreita de palma Tavira (Algarve) Feita por artesãs entre os 70 e os 80 anos Cesta Espiral, da AECT
Burel e tecelagem de lã Manteigas (Serra da Estrela) Oficina familiar desde 1925, lã bordaleira autóctone Manta Pastor, da Ecolã
Tear manual e tinturaria natural Campo Benfeito (Serra de Montemuro) Cooperativa de aldeia, tintas de plantas locais Casaco de Burel, das Capuchinhas
Viola campaniça Baixo Alentejo; construída em Aveiro Quase desapareceu nos anos 80 Viola Campaniça, de Instrumentos Valente
Sal tradicional Samouco, Alcochete (Tejo) Única salina ativa no Tejo, cinco salineiros Flor de Sal, das Salinas do Samouco
Vidro soprado em molde de madeira Caldas da Rainha Moldes de troncos ocos, cada peça é diferente Jarro Cerne, de Samuel Reis
Cobertor de papa Maçainhas, Guarda Única equipa certificada, tear com cerca de 300 anos História de O Genuíno Cobertor de Papa

Como reconhecer uma peça feita por um mestre artesão?

Uma peça de mestre tem nome, lugar e marcas da mão de quem a fez. Antes de comprar, vale a pena olhar para estes sinais:

  • Pergunte quem fez e onde. Um cesto de esparto de Paderne e um cesto de palma de Tavira podem parecer primos, mas são ofícios diferentes.
  • Desconfie de peças idênticas, sem nome, vendidas apenas como "típicas" ou "tradicionais".
  • Compre a quem conhece o artesão, na oficina, numa feira ou numa loja que diga o nome de quem fez a peça.

Há outros mestres, como o caldeireiro Nuno Palma, em Loulé. Na Ra‑Ro, cada peça tem o nome de quem a fez, e o Índice Ra‑Ro diz-lhe quão rara é.

Perguntas frequentes

Quais são os ofícios mais raros em Portugal?

Não há uma lista oficial única. Entre os ofícios tradicionais portugueses mais frágeis estão a espartaria do Algarve, a empreita de palma, o burel da Serra da Estrela, a construção da viola campaniça, o sal tradicional do Tejo e o cobertor de papa de Maçainhas.

Porque é que há cada vez menos mestres artesãos?

Porque muitos ofícios deixaram de dar sustento. Onde o saber sobrevive, é quase sempre porque alguém decidiu voltar, como Isidoro Ramos no esparto ou Céu Reis no cobertor de papa.

Qual é a diferença entre esparto e palma?

São plantas diferentes. O esparto é arrancado nas serras do interior algarvio e do Alentejo e seca ao sol até ficar dourado. A palma dá as tiras que se entrançam na empreita.

Quantos salineiros trabalham nas Salinas do Samouco?

Segundo as próprias Salinas do Samouco, a Marinha do Canto, única salina ativa no Tejo, é trabalhada por uma equipa de cinco salineiros.

O cobertor de papa é património cultural imaterial?

Em 2019, a Câmara da Guarda iniciou o processo para inscrever o fabrico do cobertor de papa no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e para o propor à UNESCO.

Como sei quão rara é uma peça na Ra‑Ro?

Cada peça tem um nível no Índice Ra‑Ro, uma escala de 1 a 5: Invulgar, Escasso, Raro, Raríssimo e Único. O nível aparece em cada peça, ao lado do nome de quem a fez.

Escrito por Tiago Reis

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