Linho português: como se faz, do campo ao tecido, e como cuidar de linho bordado
O linho passa por mais de dez etapas até virar tecido, quase todas feitas à mão. Veja o ciclo do linho, onde ainda se faz em Portugal e como cuidar de uma peça bordada.
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Por Luís Serra, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil
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Quando se fala de linho, pensa-se no tecido. Faz sentido, é o que se compra. Mas o que me parece mais interessante no linho português não é o pano. É tudo o que acontece antes dele, e que explica porque é que uma peça de linho feita à mão custa o que custa.
O linho português é um tecido feito a partir das fibras do caule do linho (Linum usitatissimum), uma planta que se semeia na primavera e se arranca no início do verão. Até virar pano passa por um ciclo quase todo manual: arrancar, ripar, curtir, secar, maçar, espadelar, assedar, fiar, branquear e tecer. Em Portugal, Várzea de Calde, no concelho de Viseu, é apontada como o único lugar onde o ciclo completo do linho ainda se pratica; na Ra-Ro, o linho chega bordado pelas mãos d'A Oficina, em Guimarães, e da Bailha, na Madeira.
Como se faz o linho, do campo ao tecido?
Semeia-se no fim de abril ou em maio, em terra bem preparada, e monda-se. Em junho, quando os caules amarelecem, as plantas arrancam-se pela raiz, para não perder fibra. Depois vem o ripanço, um pente grande que tira a semente, a linhaça. Até aqui, agricultura.
A partir daqui começa a parte que acho verdadeiramente engenhosa. Os molhos ficam vários dias em água, em tanques ou ribeiros, até a parte lenhosa do caule começar a soltar a fibra. Secam ao sol e são batidos com um maço para partir a casca. Espadelar é bater a fibra com uma lâmina de madeira, a espadela, para lhe tirar as palhas que ficaram presas. Depois a fibra passa pelos sedeiros, pentes de dentes de ferro, e separa-se em duas: a fibra longa e fina é o linho, a curta e grossa é a estopa.
Só então se fia, com roca e fuso ou com roda de fiar, e o fio junta-se em meadas. As meadas eram branqueadas com barrela, a água com cinza, e postas a corar ao sol. No fim, o fio é dobado em novelos, urdido e tecido num tear manual. São mais de dez etapas, e ainda não chegámos ao bordado.
Cada etapa tinha as suas ferramentas, os seus dias e, muitas vezes, os seus cantares. Isso explica porque é que o linho ficou tão ligado à vida das aldeias do norte e do centro. E explica também porque é que quase desapareceu: um processo destes não sobrevive quando deixa de haver uma aldeia inteira para o fazer.
Onde ainda se faz linho em Portugal?
Em 2018, a Câmara de Viseu descrevia Várzea de Calde como o único lugar do país onde todo o ciclo do linho, da sementeira à tecelagem, ainda é preservado e praticado, com uma Cooperativa do Linho e um grupo etnográfico ligados à aldeia. Noutras aldeias do norte, o ciclo é recriado em festas e demonstrações, e há tecedeiras que continuam a trabalhar o fio em teares manuais.
Para quem quer perceber o processo com as mãos, a etapa mais acessível é fiar. O Fuso para fiar Lã e Linho, do coletivo Enfia o Barrete, é um bom começo, e os primeiros passos estão em Como fiar lã com fuso. Aviso honesto: parece mais fácil do que é.
Linho bordado: que peças há e como cuidar delas?
O linho é o tecido de muitos bordados portugueses. Em Guimarães, A Oficina trabalha com algumas das poucas artesãs certificadas no Bordado de Guimarães, e os dois sacos de linho que faz, um para amêndoas e outro para alfazema, vêm juntos no Pack Bordado de Guimarães. A diferença entre este bordado e o dos lenços dos namorados está em Bordado de Guimarães e lenço dos namorados. Na Madeira, os Guardanapos Bailha são em linho bege, bordados pelas artesãs Dorina Pita e Helena da Silva.
Cuidar de linho bordado é simples, desde que se perceba o que o estraga. Lava-se à mão ou em programa delicado, em água fria ou morna, com sabão neutro. A lixívia fica de fora: amarelece o linho e desbota as linhas do bordado. Não se torce; carrega-se com uma toalha para tirar a água. Seca à sombra, estendido, longe do sol forte e do secador. Passa-se a ferro ainda húmido, do avesso, sobre uma toalha felpuda, para não esmagar o relevo. As nódoas tratam-se logo com água fria, porque a quente pode fixá-las. E guarda-se limpo e seco, em gavetas ou caixas de tecido, nunca em plástico, mudando as dobras de vez em quando para o linho não marcar.
Há um pormenor que muda a forma de olhar para estas peças: o linho fica mais macio com o uso e com as lavagens. Ou seja, a forma mais segura de desperdiçar uma toalha de linho bordado é guardá-la para uma ocasião que nunca chega.
Se for pôr a mesa para uma ocasião especial, há a Mesa de Natal portuguesa. Para conhecer a terra do Bordado de Guimarães, o roteiro Minho, berço de Portugal e a página da região do Minho. E, para a gaveta, o Saco de Alfazema d'A Oficina, que é linho bordado e ainda perfuma a roupa à volta.
Perguntas frequentes
Como se faz o linho?
Semeia-se na primavera e arranca-se em junho; os caules são curtidos em água, secos e batidos para soltar a fibra, que depois é penteada, fiada, branqueada e tecida em tear.
O que é espadelar o linho?
É a etapa em que se bate a fibra com uma lâmina de madeira chamada espadela, para lhe tirar os restos de palha depois de maçada.
Qual a diferença entre linho e estopa?
São as duas fibras que saem dos sedeiros: a longa e fina dá o linho, a curta e grossa dá a estopa, usada em panos mais rústicos.
Onde ainda se faz linho em Portugal?
Em Várzea de Calde, no concelho de Viseu, apontada pela Câmara como o lugar onde o ciclo do linho se mantém completo.
Como se lava linho bordado?
À mão ou em programa delicado, com água fria ou morna e sabão neutro, sem lixívia e sem torcer. Passe a ferro do avesso enquanto ainda está húmido.
Onde comprar linho bordado português?
Na Ra-Ro, que tem peças de Bordado de Guimarães d'A Oficina e guardanapos da Bailha, da Madeira, com envio para Portugal, Europa, EUA, Canadá e Brasil.
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