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Apoiar artesãos portugueses: como comprar artesanato ajuda os ofícios em risco

Um ofício só passa à geração seguinte se houver quem compre as peças. Veja porque há ofícios em risco, o que muda quando compra a um artesão identificado e como escolher artesanato autêntico.

6 min de leituraPor Tiago Reis

Cobertor de Papa (Manta do Pastor) tecido em tear manual em Maçainhas, na Guarda
Cobertor de Papa (Manta do Pastor) tecido em tear manual em Maçainhas, na Guarda

Tiago ReisPor Tiago Reis, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil

Leitura de cerca de 6 minutos

Cobertor de Papa (Manta do Pastor) tecido em tear manual em Maçainhas, na Guarda

Comprar artesanato português a quem o faz é a forma mais direta de apoiar os artesãos: um ofício só passa à geração seguinte se houver quem compre as peças. Na Ra-Ro, cada peça tem o nome do artesão ou da oficina, a técnica e a origem, e a maioria só começa a ser feita depois da encomenda. Comprar um cobertor, uma caçoila ou um candeeiro de bunho é, por isso, encomendar trabalho a uma oficina concreta.

Apoiar artesãos portugueses em resumo

  • O problema: muitos ofícios dependem de poucos mestres e de pouca procura; sem compradores, deixa de haver razão para ensinar quem vem a seguir.
  • O que muda com a compra: a encomenda chega a uma oficina identificada e, muitas vezes, é ela que põe a peça a ser feita.
  • Como reconhecer artesanato autêntico: artesão com nome, técnica explicada e origem clara.
  • Na Ra-Ro: 40 artesãos de 29 oficinas e produtores, do Minho aos Açores, e o Índice Ra-Ro para mostrar o que é mais raro.

Porque é que tantos ofícios tradicionais estão em risco

Um ofício tradicional aprende-se durante anos, ao lado de um mestre. Quando restam poucos mestres e nenhum aprendiz, basta uma reforma ou uma doença para uma técnica parar. A isto juntam-se os objetos industriais, mais baratos, e a falta de visibilidade: muitas oficinas ficam longe das cidades e vendem só em feiras ou à porta de casa.

Os exemplos são claros. O processo de fabrico da louça preta de Bisalhães, em Vila Real, foi inscrito pela UNESCO em 2016 na lista do património imaterial que precisa de salvaguarda urgente. O Bordado de Guimarães tem apenas oito artesãs certificadas. E entre os últimos a praticar a soenga, a cozedura a céu aberto que dá a cor ao barro negro de Gondar, estão César Teixeira e o filho, João. Contamos mais casos em Ofícios raros em Portugal: os últimos mestres e em Artesanato em risco: técnicas raras.

O que faz a Ra-Ro pelos artesãos

A Ra-Ro parte de uma ideia simples: para um ofício sobreviver, é preciso um mercado que o sustente. Os três fundadores, Sérgio Carvalho, Luís Serra e Tiago Reis, passaram um ano a testar peças junto do público e a ganhar a confiança dos artesãos antes de abrir a loja. Hoje a Ra-Ro reúne 40 artesãos de 29 oficinas e produtores, em mais de 20 concelhos, do Minho aos Açores, e quer duplicar o número de artesãos até ao fim de 2026.

  • Nome e rosto: cada peça é apresentada com o artesão ou a oficina que a faz. A Ra-Ro fotografa as peças, escreve as suas histórias e já fez 19 curtas-metragens sobre os artesãos; uma delas, Made of Time, sobre o barro negro de Gondar, recebeu quatro prémios.
  • Venda, embalagem e envio: a Ra-Ro trata das encomendas, da embalagem e do envio para Portugal e para o estrangeiro, para que o artesão se concentre no ofício.
  • Mercado internacional: o site está em sete línguas e já recebeu encomendas da Alemanha, do Reino Unido, da Irlanda, de França e da República Checa.
  • Índice Ra-Ro: uma escala própria com cinco níveis (Invulgar, Escasso, Raro, Raríssimo e Único) que mede quão difícil é encontrar uma peça e quantos artesãos ainda a fazem. Não é uma certificação oficial de património. Veja como funciona no Índice Ra-Ro.
  • Packs do mesmo produtor: conjuntos de peças da mesma oficina, 10% mais baratos do que as peças em separado, como o Pack Bordado de Guimarães (53,27 euros), com dois sacos de linho bordados em A Oficina, onde trabalham duas das oito artesãs certificadas.

Conheça o projeto em A Ra-Ro.

O que acontece quando compra uma peça

Duas em cada três peças da Ra-Ro só começam a ser feitas depois da compra. A encomenda segue para a oficina, o artesão faz a peça à mão e o tempo de execução depende da técnica: pode ir de 48 horas a oito semanas. Um Cobertor de Papa (Manta do Pastor) (198,10 euros) é tecido por Céu Reis em Maçainhas, na Guarda, num tear com mais de 300 anos, e leva cerca de quatro semanas. Uma Viola Braguesa (1920,00 euros) de Diogo Valente pode levar perto de oito semanas.

Peças que mantêm ofícios raros vivos

  • Caçoila de Barro Negro (56,20 euros), de César Teixeira, em Gondar: cozida na soenga, técnica criada pelos artesãos locais no início do século XVII, com chamas que chegam aos 1000 ºC.
  • Candeeiro em Bunho (94,70 euros), de Helena Novelletto, uma das últimas artesãs a entrançar bunho no país.
  • Cabeça de Burro (26,50 euros), de Isidoro Ramos, um dos poucos que ainda apanham esparto na serra algarvia.
  • Vinho dos Mortos (24,40 euros), de Boticas, onde o vinho é enterrado para envelhecer, um costume que vem das invasões francesas; o vinho é feito por Nuno Pereira.

Para descobrir outros artesãos, explore o Mapa Ra-Ro.

Como escolher artesanato português autêntico

  • Artesão identificado: uma peça feita à mão tem quem a fez.
  • Técnica explicada: deve ser possível saber como foi feita: tear, roda, soenga, entrançado.
  • Origem clara: aldeia, concelho, região.
  • Preço coerente: um cobertor que fica semanas no tear não pode custar o mesmo que um industrial.

Explicamos os critérios de raridade em O que torna uma peça rara.

Comprar artesanato é comércio justo?

Comércio justo é também o nome de um movimento com certificação e regras próprias, e este artigo não fala de selos. No sentido mais simples, uma compra é mais justa quando se sabe quem fez a peça, onde e como, e quando o preço reflete o tempo de trabalho.

Outras formas de apoiar os artesãos

Perguntas frequentes

Como posso apoiar os artesãos portugueses?

Comprando peças com o artesão identificado, oferecendo artesanato e partilhando o trabalho das oficinas. Na Ra-Ro, cada peça indica quem a fez e onde.

Onde comprar artesanato português online?

Na Ra-Ro, que reúne 40 artesãos de 29 oficinas e produtores, do Minho aos Açores, e envia para Portugal e para o estrangeiro.

Que ofícios tradicionais estão em risco em Portugal?

Entre outros, a louça preta de Bisalhães, inscrita pela UNESCO em 2016 na lista de salvaguarda urgente, o Bordado de Guimarães, com oito artesãs certificadas, e a soenga do barro negro de Gondar.

Porque comprar feito à mão?

Porque cada peça leva o tempo e a técnica de uma pessoa concreta, e porque a procura é o que dá razão a um mestre para ensinar o ofício.

O que é o Índice Ra-Ro?

É uma escala própria da Ra-Ro com cinco níveis, de Invulgar a Único, que mede quão difícil é encontrar uma peça e quantos artesãos ainda a fazem. Não é uma certificação oficial.

Escrito por Tiago Reis

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