Por Sérgio Carvalho, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil
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Na adolescência, a roupa era atitude. Escolhi o cabelo, deixei-o crescer e assumi-o como imagem de marca, com a convicção absoluta de quem tem quinze anos. Por isso tenho um fraco por peças que se usam porque sim. O barrete de orelhas é uma delas.
O Barrete de Orelhas Regional é um barrete de lã de ovelha tricotado à mão na Madeira por Isabel da Eira, colaboradora do coletivo Enfia o Barrete, com cinco agulhas de duas pontas, em círculo e sem costuras, como sempre se fez o barrete de orelhas, também chamado barrete de vilão.
Antes de ser símbolo, foi roupa de trabalho. Os homens do campo madeirense usavam-no no dia a dia, denso e resistente, feito nas cores da lã de ovelha, branco ou castanho. Hoje aparece em festas e no folclore. E aparece também na cabeça de quem gosta dele, que é a melhor razão.

Como se faz
O barrete de orelhas é um barrete de lã tricotado em círculo, sem costuras, com abas laterais amovíveis e uma borla no topo. A lã era fiada nos fusos e depois tricotada com cinco agulhas de duas pontas. Isabel da Eira faz exatamente isso, com o saber que o tempo lhe ensinou.
As abas protegem as orelhas do vento. A borla não protege nada. Está lá por graça. Gosto de um objeto que tem a honestidade de admitir que uma parte dele serve só para ficar bem.
Da lã ao barrete
As ovelhas da Madeira são pequenas, mas produzem uma lã de fibra longa, resistente e robusta. É com esta lã que o barrete ganha a densidade que o faz aguentar o vento das serras. Antes de ser tricotada, a lã era fiada à mão, nos fusos. O Enfia o Barrete recuperou também esses fusos, a partir de exemplares antigos encontrados em Santana e na Calheta.
O barrete de orelhas é uma peça de sistema: lã da ilha, fusos da ilha, mãos da ilha. Tirar uma destas partes e o barrete continua a existir, mas deixa de ser o mesmo. É por isso que o trabalho do coletivo não se fica pelo chapéu. Estuda as ferramentas, faz protótipos, organiza oficinas e exposições. Para que a tradição não adormeça, como eles dizem.
Quem está por trás
O coletivo Enfia o Barrete foi criado em 2021 por Irina Andrusko e Luz Ornelas, para investigação e valorização da lã madeirense e preservação do tradicional barrete de orelhas. Irina Andrusko é investigadora, linguista e criadora têxtil, natural da Estónia, a viver na Madeira desde 2011. Luz Ornelas é engenheira de madeiras. Nenhuma das duas precisava de um barrete. Decidiram que a Madeira precisava.

Pertencer a um lugar também se faz com coisas assim. Um chapéu que ninguém de fora compreende à primeira. Que se explica mal e se usa bem.
Um barrete é um acessório ou é uma pertença? É a questão que nos podemos colocar. Desconfio que, na Madeira, é as duas coisas ao mesmo tempo.
Voltando ao cabelo dos quinze anos: há escolhas que parecem ridículas e que, vistas de longe, eram as mais certas. O conselho é enfiar o barrete. No bom sentido.
Perguntas frequentes
O que é o barrete de orelhas?
É um barrete tradicional da Madeira, também chamado barrete de vilão, tricotado em lã de ovelha, com abas laterais amovíveis e uma borla no topo. Foi roupa de trabalho dos homens do campo e hoje é símbolo do artesanato madeirense.
Como é feito o barrete de orelhas?
A lã é tricotada com cinco agulhas de duas pontas, em círculo e sem costuras. É feito à mão por Isabel da Eira, colaboradora do coletivo Enfia o Barrete.
O que é o coletivo Enfia o Barrete?
É um projeto criado em 2021 por Irina Andrusko e Luz Ornelas para investigar e valorizar a lã madeirense e preservar o barrete de orelhas.
De que cores existe o barrete?
Nas cores naturais da lã de ovelha, como o branco e o castanho.
Há uma versão mais pequena?
Sim, existe o Barrete de Orelhas Regional Miniatura, feito com o mesmo rigor e os mesmos materiais do original.


