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Bordado da Madeira: o que é, história, pontos e como reconhecer o verdadeiro

O Bordado da Madeira é feito à mão na ilha, sobre linho, algodão, seda ou organdi. Veja a história, os pontos, como reconhecer o verdadeiro e como cuidar dele.

6 min de leituraPor Luís Serra

Camisa Flora da Bailha com Bordado da Madeira em tom creme
Camisa Flora da Bailha com Bordado da Madeira em tom creme

Luís SerraPor Luís Serra, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil

Leitura de cerca de 5 minutos

Camisa Flora da Bailha com Bordado da Madeira em tom creme

Comecei por achar que o problema do Bordado da Madeira era ser bonito demais. Aquela toalha que vive dobrada numa gaveta à espera de uma visita que nunca chega. Depois percebi que o problema era outro, e mais prático: muita gente compra "bordado da Madeira" sem saber o que está a comprar.

O Bordado da Madeira é um bordado feito à mão na ilha da Madeira, sobre linho, algodão, seda natural ou organdi, com pontos como o richelieu, o caseado, a corda, o garanito e o francês e desenhos tirados da natureza. Para saber se uma peça é verdadeira, o sinal mais seguro é o selo de garantia do IVBAM, o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, que verifica a qualidade e a autenticidade das peças. Na Ra-Ro, o Bordado da Madeira chega através da Bailha, o projeto de David Oliveira, do Estreito de Câmara de Lobos, com camisas e guardanapos bordados à mão por artesãs da ilha.

De onde vem o Bordado da Madeira?

O bordado acompanha a ilha desde o povoamento, no século XV. No início, acredita-se, bordavam as senhoras da nobreza, para a casa, para a roupa e para a igreja, com motivos tirados da natureza. Até aqui, nada de muito diferente de outros bordados europeus.

A parte que me interessa mais vem depois. Na segunda metade do século XIX, comerciantes ingleses instalados no Funchal começaram a exportar o bordado para o Reino Unido, e um nome ficou ligado a essa viragem: Elizabeth Phelps, de uma família inglesa do comércio do vinho, nascida no Funchal, que ajudou a transformar o bordado num trabalho pago para as mulheres da ilha. Seguiram-se a Alemanha e os Estados Unidos. Ou seja, o Bordado da Madeira deixou de ser um passatempo doméstico e passou a ser um negócio, com mercados, encomendas e prazos. Isso explica muito do rigor que tem até hoje.

Hoje há cerca de dez empresas a produzir Bordado da Madeira e perto de mil bordadeiras a trabalhar no ofício, muitas delas em casa. Mil pessoas parece muito. Para uma tradição com quinhentos anos, é pouco.

Que pontos usa o Bordado da Madeira?

O desenho é passado para o tecido e depois bordado à mão, ponto a ponto. Uma peça grande pode levar vários meses. Os motivos são quase sempre naturalistas: flores, folhas, ramagens. O que distingue o Bordado da Madeira não é tanto o tema, é a técnica.

O richelieu é um ponto em que se recortam zonas do tecido e se ligam com pequenas pontes de linha, deixando ver o fundo. O ilhó faz pequenos furos rematados à volta, que dão leveza ao desenho. O caseado e o arrendado rematam margens e criam o efeito de renda. Depois há os pontos que desenham: a corda, o pau, o garanito, o bastido, o matiz e o francês, para caules, contornos, pequenos relevos e enchimentos.

São estes últimos que aparecem nas peças da Bailha. A Camisa Flora, em creme e com botões de madeira, tem a flora da ilha em bastido, pau, garanito e corda. A Camisa Til borda o til, uma das árvores mais características da Madeira, em francês, pau, garanito e corda. As camisas são de linho e algodão leve, em tom cru, com 150 gramas e corte descontraído. Gosto da ideia por uma razão simples: põe o bordado numa coisa que se veste à terça-feira, não só em dia de festa. E cada descrição diz que pontos foram usados e quem bordou, o que, num tema em que a origem é tudo, não é um pormenor.

Como reconhecer o Bordado da Madeira verdadeiro?

Primeiro, o selo de garantia do IVBAM. O instituto analisa as peças e aplica-lhes o selo; é a prova mais clara. Segundo, a lei: em 1985, o Bordado da Madeira foi o primeiro produto não agrícola português protegido como Indicação Geográfica, e a União Europeia criou entretanto um sistema comum de proteção para indicações geográficas de produtos artesanais e industriais, de que este nome pode beneficiar.

Terceiro, olhar. Num bordado à mão há pequenas diferenças de ponto para ponto. A máquina repete tudo na perfeição e o avesso costuma denunciá-la. Quarto, perguntar: quem bordou, e onde? Se não houver selo, quem vende tem de saber responder. Quinto, o preço. Horas e meses de trabalho à mão não cabem num preço muito baixo. Isto não é argumento de venda, é aritmética.

Uma vez em casa, o cuidado é simples: lavar à mão em água fria ou morna, com sabão neutro e sem lixívia, que amarela o linho e enfraquece a linha. Não torcer, secar à sombra, passar a ferro pelo avesso sobre uma toalha felpuda para não esmagar o relevo, e guardar dobrado em papel de seda, longe do plástico. Os Guardanapos Bailha, em linho bege bordado em bastido, matiz, corda, garanito e pau, aguentam bem esta rotina. E foram feitos para ir à mesa.

Que é, no fundo, a minha conclusão. O Bordado da Madeira não precisa de mais proteção na gaveta. Precisa de quem o reconheça e o use. Se vai à ilha, o Roteiro Madeira ajuda a escolher o que ver e o que trazer, e a página Região Madeira reúne os artesãos madeirenses da Ra-Ro. Para comparar com outro bordado português, há o Bordado de Guimarães e o lenço dos namorados. E, da mesma ilha mas noutra arte, o Barrete de Orelhas Regional, cuja história contamos em Enfiar o barrete.

Perguntas frequentes

O que é o Bordado da Madeira?

Um bordado manual da ilha da Madeira, trabalhado em linho, algodão, seda natural ou organdi, com motivos de flores, folhas e ramagens e pontos próprios como o richelieu, o ilhó e o garanito.

Como sei se o Bordado da Madeira é verdadeiro?

Confirme se a peça tem o selo de garantia do IVBAM, que certifica a autenticidade. Sem selo, peça ao vendedor a origem da peça e o nome de quem a bordou.

O Bordado da Madeira tem Indicação Geográfica?

Sim. O nome está protegido desde 1985, quando se tornou o primeiro produto não agrícola português com Indicação Geográfica.

Quem levou o Bordado da Madeira para Inglaterra?

Comerciantes ingleses do Funchal, a partir da segunda metade do século XIX. Elizabeth Phelps teve um papel central em fazer do bordado um ofício pago para as mulheres da ilha e em divulgá-lo em Inglaterra.

Como se lava o Bordado da Madeira?

À mão, em água fria ou morna, com sabão neutro. Evite a lixívia, não torça a peça e passe-a a ferro pelo avesso.

Onde comprar Bordado da Madeira?

Na Ra-Ro, através da Bailha, de David Oliveira, com camisas e guardanapos bordados à mão por artesãs madeirenses.

Escrito por Luís Serra

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