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Cabeça de Burro em esparto: a memória de um companheiro que quase desapareceu

Uma cabeça de burro trançada em esparto por Isidoro Ramos, em Paderne, guarda a memória de um animal quase extinto no Algarve e de um saber herdado.

4 min de leituraPor Luís Serra

Cabeça de Burro em esparto de Isidoro Ramos - Ra-Ro
Cabeça de Burro em esparto de Isidoro Ramos - Ra-Ro

Luís SerraPor Luís Serra, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil

Leitura de cerca de 3 minutos

Cabeça de burro decorativa trançada em esparto

Comecei por achar que uma cabeça de burro em esparto era um objeto simpático e pouco mais. Uma peça alegre, para pendurar na parede de uma casa de campo. Depois percebi que a questão era outra.

A Cabeça de Burro é uma escultura decorativa em esparto feita à mão por Isidoro Ramos, artesão de Paderne, no concelho de Albufeira, no Algarve, com a empreita, a técnica de entrançar o esparto que aprendeu com a avó e com a mãe. Existe em vários tamanhos.

Porque é que o burro quase desapareceu do Algarve?

Durante gerações, o burro foi parceiro de trabalho inseparável dos agricultores algarvios, sobretudo na serra. Servia a agricultura de subsistência e o transporte. Quando a mecanização chegou ao campo, deixou de ser preciso e foi desaparecendo. Hoje é uma espécie quase extinta na região.

Há quem o esteja a recuperar, na agricultura biológica e regenerativa, no turismo de natureza e em projetos de preservação. Na prática, esta peça faz uma coisa rara: lembra-nos de um animal que ainda existe, mas que quase ninguém vê.

Cabeça de burro em esparto vista de três quartos

O que é o esparto e como se trabalha?

O esparto é uma planta autóctone que cresce nos campos e nas serras do Algarve. Isidoro Ramos arranca-o entre julho e setembro, deixa-o ao sol até ganhar um tom dourado e depois demolha-o, para ficar macio. Só então o entrança em tiras, a empreita, que são enroladas e cosidas entre si com agulha grossa e corda de juta ou sisal.

Contado assim parece simples. Não é. Depende do calendário da planta, do sol e de mãos que saibam o que estão a fazer.

Porque é que esta peça importa?

Para mim, o interessante está na coincidência. Isidoro Ramos não deixa o burro desaparecer. Nem o esparto. Nem as técnicas que a avó e a mãe lhe ensinaram. São três coisas em risco a segurar-se umas às outras numa só peça.

O resultado tem focinho grande, orelhas espetadas e atentas, olhos quase doces e uma cabeça entrelaçada com cores. Tem graça. E a graça, aqui, conta: é ela que faz alguém parar e perguntar de onde veio aquilo.

Comecei por ver um objeto decorativo. Acabei a ver um arquivo. Pequeno, dourado e com orelhas.

Cabeça de Burro

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Cabeça de Burro, por Isidoro Ramos

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Perguntas frequentes

O que é a Cabeça de Burro em esparto?

Uma escultura decorativa em forma de cabeça de burro, feita à mão em esparto, uma fibra vegetal nativa. Celebra a memória rural do Algarve.

Quem faz esta peça e onde?

Isidoro Ramos, artesão de Paderne, no Algarve, que aprendeu a técnica do esparto com a avó e a mãe.

Que materiais são usados?

O corpo é feito de esparto, uma planta nativa, unido com corda natural de juta ou sisal.

Qual é a técnica?

O esparto é entrançado em tiras chamadas empreita, que depois são enroladas e cosidas com agulha grossa e corda natural até formar o volume da peça.

Porque é tão rara?

O burro quase desapareceu do Algarve com a mecanização, e o próprio saber do esparto está em risco por ser transmitido por cada vez menos mãos.

Como é recolhido e preparado o esparto?

É colhido entre julho e setembro, seco ao sol até ganhar um tom dourado e depois humedecido para amolecer antes de ser entrançado e cosido à mão.

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