Cabeça de Burro em esparto: a memória de um companheiro que quase desapareceu
Uma cabeça de burro trançada em esparto por Isidoro Ramos, em Paderne, guarda a memória de um animal quase extinto no Algarve e de um saber herdado.
Neste artigo
Por Luís Serra, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil
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Comecei por achar que uma cabeça de burro em esparto era um objeto simpático e pouco mais. Uma peça alegre, para pendurar na parede de uma casa de campo. Depois percebi que a questão era outra.
A Cabeça de Burro é uma escultura decorativa em esparto feita à mão por Isidoro Ramos, artesão de Paderne, no concelho de Albufeira, no Algarve, com a empreita, a técnica de entrançar o esparto que aprendeu com a avó e com a mãe. Existe em vários tamanhos.
Porque é que o burro quase desapareceu do Algarve?
Durante gerações, o burro foi parceiro de trabalho inseparável dos agricultores algarvios, sobretudo na serra. Servia a agricultura de subsistência e o transporte. Quando a mecanização chegou ao campo, deixou de ser preciso e foi desaparecendo. Hoje é uma espécie quase extinta na região.
Há quem o esteja a recuperar, na agricultura biológica e regenerativa, no turismo de natureza e em projetos de preservação. Na prática, esta peça faz uma coisa rara: lembra-nos de um animal que ainda existe, mas que quase ninguém vê.

O que é o esparto e como se trabalha?
O esparto é uma planta autóctone que cresce nos campos e nas serras do Algarve. Isidoro Ramos arranca-o entre julho e setembro, deixa-o ao sol até ganhar um tom dourado e depois demolha-o, para ficar macio. Só então o entrança em tiras, a empreita, que são enroladas e cosidas entre si com agulha grossa e corda de juta ou sisal.
Contado assim parece simples. Não é. Depende do calendário da planta, do sol e de mãos que saibam o que estão a fazer.
Porque é que esta peça importa?
Para mim, o interessante está na coincidência. Isidoro Ramos não deixa o burro desaparecer. Nem o esparto. Nem as técnicas que a avó e a mãe lhe ensinaram. São três coisas em risco a segurar-se umas às outras numa só peça.
O resultado tem focinho grande, orelhas espetadas e atentas, olhos quase doces e uma cabeça entrelaçada com cores. Tem graça. E a graça, aqui, conta: é ela que faz alguém parar e perguntar de onde veio aquilo.
Comecei por ver um objeto decorativo. Acabei a ver um arquivo. Pequeno, dourado e com orelhas.
Perguntas frequentes
O que é a Cabeça de Burro em esparto?
Uma escultura decorativa em forma de cabeça de burro, feita à mão em esparto, uma fibra vegetal nativa. Celebra a memória rural do Algarve.
Quem faz esta peça e onde?
Isidoro Ramos, artesão de Paderne, no Algarve, que aprendeu a técnica do esparto com a avó e a mãe.
Que materiais são usados?
O corpo é feito de esparto, uma planta nativa, unido com corda natural de juta ou sisal.
Qual é a técnica?
O esparto é entrançado em tiras chamadas empreita, que depois são enroladas e cosidas com agulha grossa e corda natural até formar o volume da peça.
Porque é tão rara?
O burro quase desapareceu do Algarve com a mecanização, e o próprio saber do esparto está em risco por ser transmitido por cada vez menos mãos.
Como é recolhido e preparado o esparto?
É colhido entre julho e setembro, seco ao sol até ganhar um tom dourado e depois humedecido para amolecer antes de ser entrançado e cosido à mão.



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