Vidro soprado à mão: como se faz, de onde vem e como cuidar
O vidro soprado nasce de uma bolha de vidro fundido, aberta com o sopro e moldada à mão. Como se faz, de onde vem a tradição da Marinha Grande, como cuidar das peças e porque é que o vidro de...
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Por Tiago Reis, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil
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Há uma coisa no vidro que sempre me pareceu estranha: está em todo o lado e quase ninguém olha para ele. Janelas, ecrãs, copos, para-brisas. Foi feito para vermos através dele, não para o vermos a ele. Por isso, quando uma peça de vidro me obriga a parar, a primeira pergunta que me ocorre não é quanto custa. É quem a fez, e como.
O vidro soprado à mão é vidro moldado pelo sopro e pelas mãos de um vidreiro, peça a peça, sem máquinas de prensagem. Faz-se recolhendo vidro fundido na ponta de uma cana metálica oca e soprando por ela até formar uma bolha, que depois se molda com ferramentas simples, calor e gravidade; no fim, a peça arrefece devagar num forno próprio para não estalar. Em Portugal, o grande centro desta tradição é a Marinha Grande, no distrito de Leiria, onde há fábricas de vidro desde 1747. Na Ra-Ro, o vidro soprado chega pelas mãos de Samuel Reis, que trabalha ao lado de mestres vidreiros e dá aos seus copos e jarros a forma e os veios do cerne da madeira.
O vidro é, no essencial, areia derretida. Misturada com barrilha e calcário e levada a um forno a mais de 1000 ºC, transforma-se numa massa espessa e incandescente que se comporta como mel quente. A técnica do sopro tem mais de dois mil anos e mudou pouco. Gosto disso. Não é uma tradição guardada numa vitrine; é um gesto que continua a funcionar porque ninguém inventou nada melhor.
Como se faz o vidro soprado à mão?
O vidreiro mergulha a ponta da cana no forno e colhe uma porção de vidro, sempre a rodar para que não escorra. Rola-a sobre uma placa de metal, sopra para abrir a primeira bolha e volta a aquecer a peça as vezes que forem precisas. Depois entram as pinças, as tesouras e os blocos de madeira molhada, e a peça passa para o pontel, uma vara de ferro presa ao fundo, enquanto se acaba a boca. Por fim vem o recozimento, horas num forno onde o vidro arrefece lentamente. Sem este passo, as tensões internas faziam-no estalar.
O que mais me impressiona no vidro soprado é que cada gesto depende da temperatura do vidro, e essa temperatura muda a cada segundo. É um trabalho de equipa e de tempo, e é isso que torna tão difícil fazer duas peças iguais. Quando se percebe isto, as pequenas diferenças entre dois copos da mesma série deixam de parecer um defeito. Passam a parecer uma assinatura.
Portugal faz vidro desde o século XV, mas foi na Marinha Grande que o ofício ganhou escala. Em 1747, o irlandês John Beare instalou ali uma fábrica, e a lenha do Pinhal de Leiria passou a alimentar os fornos. Em 1769, com o apoio do Marquês de Pombal, o inglês Guilherme Stephens fundou a Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, e a terra ficou conhecida como a capital do vidro em Portugal. Na região ainda há oficinas que trabalham o vidro à mão ao lado da indústria, e isso merece ser dito: há quem continue a escolher o caminho mais difícil.
Samuel Reis e o vidro que não quer ser invisível
É aqui que entra o Samuel Reis, e é por causa dele que tenho vontade de escrever sobre vidro. O cerne da madeira é a parte mais densa e escura do interior de um tronco. O Samuel pega num material feito para desaparecer e dá-lhe os veios dessa madeira. O resultado é vidro soprado que se faz notar, em vez de passar despercebido. Gosto mesmo desta ideia de mostrar o vidro em vez de o esconder. E gosto de outra coisa: o Samuel trabalha ao lado de mestres vidreiros, o que quer dizer que cada peça é dele e é também de quem domina o forno e a cana há anos.
Da mesma série há os Copos Cerne de Madeira, um par pensado para o móvel de bar, e o Jarro Cerne da Madeira em Vidro, que na mesa faz o que um jarro raramente faz: chama a atenção mesmo vazio.
Como reconhecer e cuidar do vidro soprado?
Há sinais simples. Pequenas diferenças de espessura, de altura ou de forma entre peças da mesma série. Bolhas minúsculas presas no vidro, que não são defeito. No fundo, por vezes, a marca do pontel, onde o vidro prensado mostraria antes linhas de molde nos lados. Mas o sinal mais fiável continua a ser o mais humano. Uma peça de autor tem nome e oficina. Quando ninguém sabe dizer quem fez uma série enorme de copos perfeitamente iguais, desconfio.
Quanto aos cuidados, o vidro soprado pede pouco, mas pede atenção. Lave-o à mão, com água morna, detergente suave e uma esponja macia; a máquina de lavar loiça pode torná-lo baço, e os choques entre peças lascam as bordas finas. Evite choques térmicos, como passar uma peça de água quente para água fria ou encher um copo frio com líquido a ferver. Seque logo com um pano que não largue pelo e, contra o calcário, deixe a peça de molho em água com um pouco de vinagre. Guarde-a de pé, com espaço à volta. Parece muito cuidado para um copo. É só o respeito que se deve a uma coisa que alguém fez a soprar.
As peças de Samuel Reis estão na Ra-Ro em separado ou juntas no Pack Cerne da Madeira. Se quiser conhecer a região onde o vidro português ganhou escala, leia o roteiro Estremadura: de Óbidos à Nazaré; para pensar onde pôr as peças, há o guia Como decorar a casa com artesanato português.
Perguntas frequentes
Como se faz o vidro soprado?
Colhe-se vidro fundido na ponta de uma cana oca, sopra-se para abrir uma bolha e dá-se forma à peça com pinças, tesouras, blocos de madeira e calor. Depois a peça arrefece durante horas num forno de recozimento.
Onde se faz vidro soprado em Portugal?
O centro histórico é a Marinha Grande, no distrito de Leiria. Tem fábricas de vidro desde 1747 e lá foi fundada, em 1769, a Real Fábrica de Vidros.
O vidro soprado pode ir à máquina de lavar loiça?
Não é aconselhável, porque o vidro pode ficar baço e as bordas finas podem lascar. O melhor é lavar à mão com água morna e secar logo.
As bolhas no vidro soprado são defeito?
Não. Pequenas bolhas de ar são normais no trabalho à mão e ajudam a distinguir uma peça soprada de uma peça industrial.
Quem faz os copos Cerne de Madeira da Ra-Ro?
Samuel Reis, que trabalha o vidro soprado com mestres vidreiros e lhe dá a forma e os veios do cerne da madeira.
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