Diabos, Sarroncos e Mafarricos: o lado sombrio do figurado português
Do Diabo de Barcelos ao Sarronco e ao Mafarrico: quem foi Rosa Ramalho, porque há tantos diabos no figurado de Barcelos, a lenda do Galo e como reconhecer uma peça de autor.
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Por Tiago Reis, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil
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Confesso: fascina-me que um povo tão devoto tenha passado gerações a modelar o Diabo com as próprias mãos. Em Barcelos, o barro não serve só para santos e galos. Serve também para chifres, línguas de fora e olhos arregalados, e é difícil olhar para estas figuras sem sorrir e sentir, ao mesmo tempo, um pequeno arrepio.
O figurado de Barcelos é a arte de modelar figuras em barro (pasta cerâmica) nas freguesias de Galegos Santa Maria e Galegos São Martinho, no concelho de Barcelos, no Minho. Nasceu como complemento da olaria, ganhou fama com a barrista Rosa Ramalho e, desde julho de 2026, está inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
O que é o figurado de Barcelos?
O figurado de Barcelos é uma produção artesanal de figuras em pasta cerâmica, feita sobretudo em Galegos, no concelho de Barcelos. Começou como atividade secundária da olaria: os oleiros aproveitavam pequenas porções de barro para fazer bonecos de pessoas e animais, muitas vezes com um apito na base, que eram brinquedos. Com o tempo, esses bonecos ganharam assinatura e nome de autor.
A 10 de julho de 2026, o figurado de Barcelos foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. A comunidade descrita no processo tem cerca de 100 pessoas no ativo, entre elas perto de 50 artesãos, e a produção faz-se ao longo de todo o ano. Gosto mesmo desta ideia: não é uma arte parada num museu, é uma arte de oficina, viva, que procura o equilíbrio entre tradição e inovação.
Quem foi Rosa Ramalho?
Rosa Ramalho foi a barrista que tornou o figurado de Barcelos conhecido em Portugal e no estrangeiro. Nasceu Rosa Barbosa Lopes a 14 de agosto de 1888, em São Martinho de Galegos, e morreu em 1977, aos 89 anos. Aprendeu o ofício em criança, casou com um moleiro e afastou-se do barro para criar a família.
Só depois de enviuvar, em 1956, com 68 anos, voltou ao barro a sério. Daí saiu um mundo inteiro: cenas do dia a dia, músicos, cristos, santos e anjos, mas também aquilo a que chamava o "mundo dos monstros", com diabos, lobisomens, sarroncos e bichos híbridos. Assinava com duas letras, RR, num monograma desenhado pelo pintor Jaime Isidoro, e foi distinguida com a medalha As Artes ao Serviço da Nação e com o grau de Dama da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
A neta, Júlia Ramalho, continuou esse imaginário, com medusas e pecados capitais incluídos. O bisneto, António Ramalho, filho de Júlia, é quem modela o Diabo, o Sarronco, a Medusa e a Parideira que temos na Ra-Ro.
Porque há tantos diabos no figurado de Barcelos?
Há tantos diabos porque o Diabo é, no imaginário popular do Minho, a figura que assusta e ao mesmo tempo seduz. Rosa Ramalho foi buscá-los às superstições locais e às histórias da serra, e perguntava se ainda haveria "desses bichos lá pelas serras". Nas suas peças, os diabos aparecem muitas vezes lado a lado com santos e anjos, num combate que o barro deixa sempre em aberto.
O tema é tão forte que o Museu de Olaria, em Barcelos, lhe dedicou em 2025 a exposição "Uma coleção dos Diabos": cerca de 300 peças de mais de 100 artistas, reunidas pelo colecionador José Santos Silva. O ponto de viragem dessa coleção foi, contou ele, um diabo de Rosa Ramalho.
O Diabo de Barcelos de António Ramalho é uma homenagem direta à bisavó. É difícil escrever esta frase sem sentir um aperto: quatro gerações depois, o mesmo diabo continua a nascer dentro da mesma família.
O que é o Sarronco?
O Sarronco é o nome que em Barcelos se dá ao Papão, a criatura com que os adultos assustavam as crianças. António Ramalho cresceu a ouvir a mãe e os mais velhos chamar pelo Sarronco, e foi essa voz que ele passou para o barro. Os sarroncos já estavam no bestiário de Rosa Ramalho, ao lado dos diabos e das bestas ferozes.
Gosto do Sarronco porque é um medo de casa, quase carinhoso. Não é o Diabo dos sermões, é o monstro do fundo do corredor, aquele que só existe enquanto a luz está apagada.
O que quer dizer mafarrico?
Mafarrico é uma palavra informal portuguesa para diabo. O dicionário Priberam regista também o sentido de pessoa endiabrada, "levada da breca", e de criança traquina, dá a variante manfarrico e considera a origem da palavra obscura.
O nosso Mafarrico não vem de Barcelos, e faço questão de o dizer com clareza. É feito por Andreia Pinho, na sua oficina em Leiria, com barro selvagem que ela própria apanha à mão em vários pontos de Portugal. É figurado popular português, da mesma família de diabos travessos, mas não é figurado de Barcelos.
Qual é a lenda do Galo de Barcelos?
A lenda conta que um peregrino galego, a caminho de Santiago de Compostela, foi acusado de um crime em Barcelos e condenado à forca. Diante do juiz, que estava à mesa, apontou para um galo assado e jurou que o galo cantaria quando o enforcassem, como prova da sua inocência. O galo levantou-se e cantou, e o peregrino foi encontrado vivo, salvo por um nó mal dado.
Anos depois, terá voltado para erguer o Cruzeiro do Senhor do Galo, monumento do século XVII que hoje está no Museu Arqueológico de Barcelos. O galo tornou-se um dos principais símbolos de Portugal no mundo. Na Ra-Ro, o Galo de Barcelos de Porfírio Mendes é talhado em cortiça e pintado com as cores tradicionais: crista vermelha, corações, amarelo e turquesa. Porfírio vive em Barcelos, trabalha na construção civil de dia e esculpe cortiça à noite. É também dele o Diabo de Cortiça, um diabo rabequista.

Quanto custa um diabo de figurado de autor?
Na Ra-Ro, um diabo de autor custa entre 51,20 € (em cortiça, de Porfírio Mendes) e 79,50 € (em barro, de António Ramalho), e o Sarronco custa 157,90 €. A tabela junta as figuras deste lado sombrio, e um galo para aliviar.
| Figura | Autor | Material | Origem | Preço na Ra-Ro |
|---|---|---|---|---|
| Diabo de Barcelos | António Ramalho | Barro | Barcelos | 79,50 € |
| Sarronco (Papão) | António Ramalho | Barro | Barcelos | 157,90 € |
| Medusa | António Ramalho | Barro | Barcelos | 53,00 € |
| A Parideira | António Ramalho | Barro | Barcelos | 53,00 € |
| Mafarrico (Diabo) | Andreia Pinho | Barro selvagem | Leiria | 54,20 € |
| Diabo de Cortiça (rabequista) | Porfírio Mendes | Cortiça | Barcelos | 51,20 € |
| Galo de Barcelos | Porfírio Mendes | Cortiça pintada | Barcelos | 60,20 € |
Como distinguir uma peça de autor de uma imitação?
Uma peça de autor tem nome, assinatura e as marcas da mão de quem a fez. Antes de comprar, vale a pena olhar para estes sinais:
- Procure a assinatura ou a marca do artesão. Rosa Ramalho marcava as suas peças com o monograma RR, pensado como símbolo de autenticidade.
- Saiba quem fez e onde. O figurado de Barcelos nasce em Galegos; um diabo de Leiria ou de cortiça pode ser igualmente autêntico, mas não é figurado de Barcelos.
- Aceite as irregularidades. Modelação e pintura à mão deixam pequenas diferenças entre peças.
- Compre a quem conhece o autor: ao próprio artesão, na feira semanal de Barcelos (às quintas-feiras, no Campo da República) ou numa loja que diga o nome de quem fez a peça.
- Desconfie de figuras idênticas, sem nome, vendidas apenas como "típicas".
Na Ra-Ro, cada peça tem o nome de quem a fez, e o Índice Ra-Ro diz-lhe quão rara é.
Perguntas frequentes
Onde se pode ver figurado de Barcelos ao vivo?
No Museu de Olaria, em Barcelos, que dedicou em 2025 uma exposição aos diabos do figurado, e na feira semanal de Barcelos, às quintas-feiras no Campo da República, onde há olaria, galos e outro artesanato.
O figurado de Barcelos é património cultural?
Sim. Foi inscrito a 10 de julho de 2026 no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. O processo identifica as freguesias de Galegos Santa Maria e Galegos São Martinho e cerca de 50 artesãos no ativo.
Quem é António Ramalho?
António Ramalho é um barrista de Barcelos, bisneto de Rosa Ramalho e filho da barrista Júlia Ramalho. O seu Diabo de Barcelos é uma homenagem à bisavó, e o Sarronco nasce do Papão com que a família assustava as crianças.
O Mafarrico da Ra-Ro é figurado de Barcelos?
Não. O Mafarrico é de Andreia Pinho, que trabalha em Leiria com barro selvagem apanhado à mão em vários pontos de Portugal. É figurado popular português, mas não pertence à tradição de Galegos, em Barcelos.
O que significa a marca RR nas peças de Rosa Ramalho?
RR são as iniciais de Rosa Ramalho. O monograma foi desenhado pelo pintor Jaime Isidoro e passou a marcar as suas peças como símbolo de autenticidade, algo que os colecionadores procuram hoje.
Os diabos de cortiça também são figurado de Barcelos?
Não no sentido estrito, porque o figurado é feito em pasta cerâmica. O Diabo de Cortiça de Porfírio Mendes é esculpido em Barcelos e partilha o mesmo imaginário, mas o material e a técnica são outros.




















