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Alguidar de Barro: a vasilha que atravessou a cozinha portuguesa

O alguidar de barro foi bancada, panela e travessa da cozinha portuguesa durante séculos. Conheça a história e os usos de uma peça de olaria que quase desapareceu.

4 min de leituraPor Tiago Reis

Alguidar de barro negro de Gondar, forjado na soenga por César Teixeira
Alguidar de barro negro de Gondar, forjado na soenga por César Teixeira

Sérgio CarvalhoPor Sérgio Carvalho, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil

Leitura de cerca de 3 minutos

Alguidar de barro negro de Gondar

Antes do plástico e do inox, havia o barro. O alguidar é uma das peças mais antigas e mais discretas da casa portuguesa: uma tigela larga, de bordos abertos, feita de barro cozido e muitas vezes vidrada por dentro. Não é uma peça de exceção nem de aparato. É uma peça de trabalho, de mãos sujas de farinha e de dias de matança, e é precisamente por isso que quase desapareceu.

O que é um alguidar de barro?

O alguidar é uma vasilha de olaria, mais larga do que alta, com as paredes inclinadas para fora. O formato não é decorativo: a boca aberta serve para amassar, mexer, salgar e servir com espaço para as mãos. O barro, poroso e de aquecimento lento, mantém uma temperatura estável, o que faz diferença em quase tudo o que lá dentro acontece.

Para que serve um alguidar?

Durante séculos, o alguidar foi o centro de tarefas que hoje dividimos por vários utensílios. Amassava-se nele o pão e a broa. Salgava-se a carne do porco depois da matança. Temperavam-se azeitonas, escaldavam-se enchidos, batia-se o arroz-doce para arrefecer. E servia-se à mesa, do mesmo alguidar em que se cozinhou, as migas, as papas e os doces. Era, ao mesmo tempo, bancada, panela e travessa.

Como se faz o barro?

Cada alguidar nasce no torno do oleiro, de barro local, e é cozido em forno a alta temperatura. Em Gondar, o barro negro nasce da soenga, uma cozedura sem oxigénio que transforma o barro vermelho em preto, sem tinta nem esmalte. Não há dois exatamente iguais: a espessura, a cor e o brilho dependem do barro, da mão e do forno. É artesanato de uso, não de vitrina.

Porque está a desaparecer?

A olaria utilitária foi das primeiras vítimas da produção industrial. É mais barato fabricar plástico e inox, e os fornos tradicionais fecharam um a um. Restam poucos oleiros a trabalhar o barro de uso diário, e cada peça que sobrevive carrega um saber que já não se aprende em série.

Como cuidar de um alguidar?

Antes da primeira utilização, convém curar a peça: mergulhá-la em água algumas horas para o barro assentar. Lave com água morna e evite detergentes agressivos e mudanças bruscas de temperatura. Bem tratado, um alguidar dura gerações, pois foi feito para isso.

A Ra-Ro reúne um alguidar em barro negro de Gondar, forjado na soenga por César Teixeira, um dos últimos oleiros a dominar esta técnica ancestral.

Alguidar de Barro Negro

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Alguidar de Barro Negro, por César Teixeira

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Perguntas frequentes

De que material é feito este alguidar?

É feito em barro preto de Gondar, uma das olarias mais singulares de Portugal. A cor preta resulta da soenga, uma cozedura subterrânea sem oxigénio que transforma o barro vermelho em preto. Sem pintura, sem esmalte.

Posso usar o alguidar para servir comida?

Sim. Tradicionalmente o barro preto de Gondar é usado para servir azeitonas, pão, frutos secos e saladas. Não é recomendado para alimentos muito ácidos ou quentes acima de 100°C. Ideal para servir frio ou à temperatura ambiente.

Como devo cuidar e lavar o alguidar?

Lavar à mão com água morna e detergente neutro. Não usar máquina de lavar loiça nem esfregões abrasivos. Secar imediatamente. Antes do primeiro uso, mergulhar em água durante uma hora para selar os poros.

Quem é César Teixeira e porque é raro este alguidar?

César Teixeira é um dos poucos oleiros que ainda domina a soenga e a roda baixa em Gondar. Aos 18 anos tornou-se aprendiz destas técnicas ancestrais, hoje em risco de desaparecer. Cada peça é única e curada pela Ra-Ro.

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