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Alguidar de Barro: a vasilha que atravessou a cozinha portuguesa

Sérgio CarvalhoPor Sérgio Carvalho, cofundador da Ra-Ro · Ver perfil

Leitura de cerca de 3 minutos

Alguidar de barro negro de Gondar

Antes do plástico e do inox, havia o barro. O alguidar é uma das peças mais antigas e mais discretas da casa portuguesa: uma tigela larga, de bordos abertos, feita de barro cozido e muitas vezes vidrada por dentro. Não é uma peça de exceção nem de aparato. É uma peça de trabalho, de mãos sujas de farinha e de dias de matança, e é precisamente por isso que quase desapareceu.

O que é um alguidar de barro?

O alguidar é uma vasilha de olaria, mais larga do que alta, com as paredes inclinadas para fora. O formato não é decorativo: a boca aberta serve para amassar, mexer, salgar e servir com espaço para as mãos. O barro, poroso e de aquecimento lento, mantém uma temperatura estável, o que faz diferença em quase tudo o que lá dentro acontece.

Para que serve um alguidar?

Durante séculos, o alguidar foi o centro de tarefas que hoje dividimos por vários utensílios. Amassava-se nele o pão e a broa. Salgava-se a carne do porco depois da matança. Temperavam-se azeitonas, escaldavam-se enchidos, batia-se o arroz-doce para arrefecer. E servia-se à mesa, do mesmo alguidar em que se cozinhou, as migas, as papas e os doces. Era, ao mesmo tempo, bancada, panela e travessa.

Como se faz o barro?

Cada alguidar nasce no torno do oleiro, de barro local, e é cozido em forno a alta temperatura. Em Gondar, o barro negro nasce da soenga, uma cozedura sem oxigénio que transforma o barro vermelho em preto, sem tinta nem esmalte. Não há dois exatamente iguais: a espessura, a cor e o brilho dependem do barro, da mão e do forno. É artesanato de uso, não de vitrina.

Porque está a desaparecer?

A olaria utilitária foi das primeiras vítimas da produção industrial. É mais barato fabricar plástico e inox, e os fornos tradicionais fecharam um a um. Restam poucos oleiros a trabalhar o barro de uso diário, e cada peça que sobrevive carrega um saber que já não se aprende em série.

Como cuidar de um alguidar?

Antes da primeira utilização, convém curar a peça: mergulhá-la em água algumas horas para o barro assentar. Lave com água morna e evite detergentes agressivos e mudanças bruscas de temperatura. Bem tratado, um alguidar dura gerações, pois foi feito para isso.

A Ra-Ro reúne um alguidar em barro negro de Gondar, forjado na soenga por César Teixeira, um dos últimos oleiros a dominar esta técnica ancestral.

Alguidar de Barro Negro

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Raríssimo

Alguidar de Barro Negro, por César Teixeira

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Perguntas frequentes

De que material é feito este alguidar?

É feito em barro preto de Gondar, uma das olarias mais singulares de Portugal. A cor preta resulta da soenga, uma cozedura subterrânea sem oxigénio que transforma o barro vermelho em preto. Sem pintura, sem esmalte.

Posso usar o alguidar para servir comida?

Sim. Tradicionalmente o barro preto de Gondar é usado para servir azeitonas, pão, frutos secos e saladas. Não é recomendado para alimentos muito ácidos ou quentes acima de 100°C. Ideal para servir frio ou à temperatura ambiente.

Como devo cuidar e lavar o alguidar?

Lavar à mão com água morna e detergente neutro. Não usar máquina de lavar loiça nem esfregões abrasivos. Secar imediatamente. Antes do primeiro uso, mergulhar em água durante uma hora para selar os poros.

Quem é César Teixeira e porque é raro este alguidar?

César Teixeira é um dos poucos oleiros que ainda domina a soenga e a roda baixa em Gondar. Aos 18 anos tornou-se aprendiz destas técnicas ancestrais, hoje em risco de desaparecer. Cada peça é única e curada pela Ra-Ro.

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